Amor como 'doença' é tema de estudo na USP

O amor patológico ainda não é reconhecido como um transtorno psiquiátrico, mas  pesquisa não apenas constatou que constitui, sim, um problema de saúde, como também tratou dos portadores
O Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo procura voluntários para uma nova pesquisa e tratamento de amor patológico. O tema vem sendo estudado por instituições mundo afora. No Brasil, a primeira pesquisa científica, que ofereceu tratamento aos participantes, foi feita por mim no IPq, de 2006 a2008, com 50 pessoas de 18 a 60 anos com amor patológico e 39 pessoas saudáveis na mesma faixa etária. Comparei os dois grupos para saber se o amor patológico constituía um problema específico de saúde. Constatei que sim. O portador não consegue controlar a quantidade de atenção que dá ao parceiro. Abre mão de sua vida, anulando-se em benefício dele.

Podem inscrever-se para o novo estudo homens e mulheres de 18 a 60 anos, de todo o país, que têm um vínculo amoroso no qual prestam cuidado excessivo ao parceiro, não estão satisfeitos e mesmo assim o mantêm. É necessário ter condições de comparecer ao IPq para avaliação e, os aprovados, para preencher os protocolos da pesquisa e fazer o tratamento. Interessados podem se inscrever com a Gisele pelo telefone (011) 3069-7805, das 8 às 17 horas.

O amor patológico não é reconhecido como um transtorno psiquiátrico. Como constatei na pesquisa, pode ocorrer com homens e mulheres. Apesar de não se saber em qual dos dois sexos é mais comum, pesquisas americanas sugerem que seria mais frequente na mulher, por questões culturais.

Com base na pesquisa que fiz no IPq, estabeleci três características principais que diferenciam indivíduos com amor patológico dos saudáveis: a) impulsividade elevada - são pessoas que tomam atitudes sem levar em consideração as consequências para sua vida; agem desse modo sobretudo para evitar a perda do companheiro; b) manutenção do relacionamento insatisfatório mesmo conscientes de que é prejudicial à sua vida; e c) autotranscendência - constumam acreditar na espiritualidade, em uma realidade maior do que a que vivem na Terra.

Ainda não se pesquisou no Brasil a causa do amor patológico. Estudos teóricos, como os iniciados pelo psiquiatra inglês John Bowlby nos anos 1960-1970, dão conta de que se desenvolveria na infância. Em minha pesquisa, a maioria dos indivíduos com amor patológico apresentava apego ansioso-ambivalente. Isso mostra que, nos primeiros anos de vida, ao enfrentar situações amedrontadoras, a pessoa que cuidou deles ora estava presente ora ausente, tornando-os inseguros quanto à sua presença. Na vida adulta, por medo de perder o parceiro, o cercam de cuidados excessivos e se descuidam de si mesmos. Por isso, se desenvolvem menos do que ele. Trabalham mal, porque estão preocupados com ele. Abandonam amigos e familiares por ele. O parceiro, de seu lado, se sente sufocado e muitas vezes termina a relação.

Portadores de amor patológico devem conversar abertamente com o parceiro, para superar o problema. Caso não consigam, precisam consultar um psiquiatra ou psicoterapeuta e se tratar. Esses profissionais estão disponíveis também no setor público, em especial nas Faculdades de Medicina (Área de Psiquiatria) e de Psicologia. Ha inúmeras técnicas de tratamento. Usamos no IPq o psicodrama, que proporciona bons resultados rapidamente.

Eglacy Sophia

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