MÚSICO CANTA A DOR E SUPERAÇÃO, APÓS PERDA DA MULHER

No disco ‘A gente mora no agora’, Paulo Miklos se cerca de parceiros como Erasmo, Guilherme Arantes, Céu e Emicida


A faixa que abre “A gente mora no agora” (Deck/ Natura Musical), disco que Paulo Miklos lança no dia 11, “A lei desse troço” traça uma carta de intenções. Estão lá: “Chorar é importante igual sorrir”; “Tudo que eu faço/ É me erguer dos destroços”; “No mundo imperfeito/ Mergulho nos fatos/ Melhor me refaço”. Ora de maneira mais doce, ora mais contundente, sempre visceral, a ideia de reconstrução contida nos versos de Emicida para a música de Miklos atravessa tudo o que se ouve em seguida. Uma reconstrução artística, sim — Miklos aparece renovado como cantor (menos agressivo do que aquele com o qual o público dos Titãs se acostumou) e como compositor (no contato com compositores da nova geração como o rapper, Céu, Silva, Mallu, Russo Passapusso, Lurdez da Luz e Tim Bernardes; velhos amigos como Nando Reis e Arnaldo Antunes; e mestres como Erasmo Carlos e Guilherme Arantes). Mas sobretudo, trata de uma reconstrução humana, como ele explica:

— Esse disco me pega num momento muito interessante de superação, nessas encruzilhadas da vida. Sofri uma série de perdas sucessivas. Fiquei viúvo (Rachel Salém, com quem estava desde 1982, morreu em 2013) e perdi minha mãe e meu pai no período de um ano e meio. Isso dá uma sacudida na gente, essa dor faz repensar. Escrevo sobre isso no disco, mas nas canções já falo de uma determinação a buscar a felicidade. Minha música com Guilherme (Arantes) é isso: “Estou amando/ Estou pronto/ Estou amando de novo” (Renata Galvão, produtora executiva do disco, é sua nova companheira).

“A gente mora no agora” é, portanto, um daqueles momentos da música popular em que — citando versos de Caetano Veloso — “nunca o ato mero de compor uma canção foi tão desesperadamente necessário” (“Noite de hotel”) ou “como é bom poder tocar um instrumento” (“Tigresa”).

— Às vezes há, como Caetano fala tão bem, uma necessidade, um impulso vital de se colocar numa canção. Purgar, apontar, mostrar — avalia Miklos. — A própria composição é um processo de crescimento, de clarear, de buscar soluções, de entender o que a gente sente. O disco é totalmente autobiográfico. Falo do que vivo, do que vivi. E é interessante que isso tenha inspirado os parceiros. Nando compôs uma canção especialmente pra mim (“Vou te encontrar”). Ele conheceu minha primeira mulher, fala da coisa da perda, de seguir. Quando ele me mostrou nos emocionamos. Guilherme Arantes se inspirou a compor a melodia de nossa balada ao saber da minha história. E o próprio Emicida escreveu querendo fazer uma espécie de perfil meu, uma fotografia minha de agora. Sua letra dá conta dessa coisa da estrada, da bagagem, ao mesmo tempo sem ter nostalgia nem viver da ansiedade do futuro.

“BRASILIDADE” COMO TÔNICA

Ao lado do caráter autobiográfico, também marca o disco uma busca de Miklos por uma sonoridade que refletisse o que ele chama de “brasilidade” — mais do que seus discos anteriores, “Paulo Miklos” (1994) e “Vou ser feliz e já volto” (2001). Algo que já aparecia em seus trabalhos recentes como o show que fez com o Quinteto em Preto e Branco, cantando Noel Rosa.

— Essa é minha escola, a minha formação — explica. — Chamei o Marcus Preto (que trabalhou com Gal Costa em “Estratosférica”) pra direção artística, pra termos essa conversa, e também pra ele fazer os contatos com os artistas que eu não conhecia. Russo Passapusso (do BaianaSystem), por exemplo, conheci pessoalmente três meses depois de fazermos a música (“Vigia”). Ao mesmo tempo, levantei um material com Pupillo (produtor do álbum, ao lado de Apollo Nove), já com ideias de ritmos, apontando pros lados que ia propor aos parceiros.

Cada parceria seguiu um caminho próprio. Ora Miklos compunha a melodia, ora escrevia os versos, tendo às vezes o ponto de partida na letra, outras na música. “Princípio ativo” nasceu de uma provocação dele a Céu (“Disse a ela: ‘Queria muito tratar do universo feminino, mas a partir de você, da sua ótica’”). Para Lurdez da Luz, ele disse que queria falar sobre o momento de polarização política do Brasil. O resultado foi “Afeto manifesto” — uma canção que trata de uma manifestação, mas tratando-a “como um lugar não de ódio, mas de amor”.

— A coisa do rap dela ficou num lugar interessante, que tem mais a ver com repente. Ficou um baião meio “mântrico” — define Miklos. — Foi esse tipo de solução que fui buscando com Pupillo.

A outra canção de origem política de resultado original é “País elétrico”, de Miklos com Erasmo.

— Li uma reportagem que dizia que o Brasil era o país onde mais caíam raios e lembrei daquela história de “um raio caia na minha cabeça se eu estiver mentindo”. Pensei que está se mentindo muito no Brasil então, liguei com “Pega na mentira” (sucesso de Erasmo dos anos 1980) e mandei a ele a ideia. Ele recontou essa história de um jeito só dele, com um raio adolescente, uma mamãe raio...

Além do novo show — dia 17 em São Paulo (Casa Natura) e dia 22 no Rio (Teatro Net Rio), Miklos segue a carreira de ator: está em dois longas que estreiam em breve e na minissérie “Sob pressão”.

— Tenho uma proposta para filmar em outubro, e quero voltar com a peça sobre Chet Baker (“Apenas um sopro”, na qual é o protagonista).

O momento, porém, não é de dispersão, pelo contrário. O disco é reflexo do desejo de foco — a unidade sonora e conceitual, mesmo com parceiros tão diferentes, é testemunha disso.

— Depois de todo o tempo de experimentações e descobertas, vem esse amadurecimento de fazer opções, de não ter a ansiedade monstro de contemplar tudo que quer, que você é. Você consegue fazer um trabalho com desenhos mais nítidos — afirma Miklos, com a segurança de quem aprendeu que mora no agora.

A partir de O Globo. Leia no original
Imagem : Divulgação
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