O AMOR NÃO TERMINA, É O MESMO DE SEMPRE

        “Não vou passar por inocente.
Mas já sofri terrivelmente.
Por caridade. Ó liberdade.
Abre as asas sobre mim…”
Paulinho da Viola e Wilson Moreira

Viver um grande amor já foi mais que um objetivo, já foi uma necessidade. Quando me dei por satisfeita, já tinha vivido alguns e cuidava então, da vida prática, que sempre ficou em segundo plano.

Estranhei, no ano passado, quando este assunto voltou a ser tema em minha vida. Depois da terapia com psicóloga, da qual me despedi depois de dois meses, o tema ficou recorrente.

Agora, poucos meses depois do curto processo terapêutico, e depois de ter sido desafiada por Batista Custódio na redação do DM, coloco-me a escrever de acordo com a sugestão de Batista, sobre “os amores que tive, os que não tive, as saudades e paixões”. Não penso que será fácil. Não quero tender para o drama, até por que rio muito da minha estória, que certamente, como todas, acho interessante.

Mas é dramático ter feito todo o primário e parte do ginásio em colégio franciscano, ter estudado a vida toda em escolas católicas e ter tido um lar extremamente amoroso e depois conciliar os aprendizados com o mundo adulto.

Assisti Dio, Come Ti Amo e, antes, tive muitos livros e discos de estórias infantis de princesas, belas e feras; alguns, ainda tenho. Curti muita leitura infanto-juvenil, como Pollyanna, O Menino do Dedo Verde e O Pequeno Príncipe e amava assistir, por exemplo, Jeannie é um Gênio, Os Jetsons, A Noviça Voadora, Dançando na Chuva, E O Vento Levou e Ardida Como Pimenta. Frequentei escolinhas de arte no Sesi; sou dos tempos da ginástica rítmica, da ginástica de solo, do interesse pelo piano; até tive aulas, com uma amiga pianista, mas acabei me apaixonando foi pela flauta, por ela ser móvel, mesmo sem dar vazão ao meu interesse. Ainda quero aprender a tocar violão. Sempre amei as artes, amei ter tido oportunidade de fazer um pouco de Teatro com Cici Pinheiro. Acredito que herdei de meus pais o gosto pelas artes em geral e pelo conhecimento; embora sejam pessoas simples, sempre tivemos em casa, acesso às variadas culturas e riquezas sociais, enaltecendo em tudo, o amor como a capacidade criadora de um mundo melhor, justo e equânime. As artes, sem sombra de dúvida, sensibilizam para o amor e este é parceiro delas.

Fui menina que se apaixonava com as músicas das telenovelas e filmes românticos e que cedo se enamorou nos namoros imaginários com o primo estudante de medicina, o garoto trabalhador do mercadinho, o primo da prima da prima e com os bilhetinhos no Colégio Santa Clara; beijei laranjas. Sempre fui muito platônica e com tendências nostálgicas de quem cresceu em meio aos sonhos de valsas, boleros, cubas libres e a filantropia amorosa de meus pais.

Tive sim, o grande amor adolescente, depois daquele pelo irmão da amiga, parceiro de dança na festa junina que propiciou o primeiro beijo aos 14 anos, em noite de São João. Sempre tudo, muito canseira, embora mágico; muito esforço meu; mas muito sentimento e olhando para trás agora, muita diversão. Namorava escondido, mamãe era austera e pouco me permitia sair às vezes, à tarde, mas curti muito uma copa do mundo e pude ir uma vez de noite, na Pecuária. Tive a época de matar aula para fumar escondido ou ficar na porta do colégio e de mentir que ia para a comunidade de jovens do Ateneu enquanto ia para o Snack Burguer, na galeria do antigo Cinema 1. Gostaria de exprimir aqui, agora, um singelo Rs. Dei trabalho. Tudo na minha vida era pensando em viver o grande amor, que seria a possibilidade de estar em um mundo paralelo, novo, transbordante de amor; de materializar e de reproduzir o que de mais lindo e bacana existe na vida.

Tempo bom, de muitos beijos na boca e daquela sensação inebriante de que o bom do mundo é a “turma”, a sensação de pertença, de alguma afinidade no labirinto em que se entra, aos 15 anos. Sempre juntei todas as coisas, nunca separei a vivência do conhecimento. Fui uma criança curiosa, festiva, amorosa, disposta. Pensava sobre as coisas que vivia. Em meio ao labirinto e às desconexões da adolescência, passei por exame de virgindade, mas graças a Deus não estava perdida. Com licença, mas neste momento preciso digitar um terapêutico Kkkkkkk.

O fato de ter experienciado uma situação de estupro, logo depois, não me tirou a esperança do grande amor. Acho mesmo incrível que nesta época, já com 16 anos, ainda não tivesse noção sobre o como era realmente, ali, em si, o ato sexual; mas eu era bem bobinha, pelo que vejo agora, e apesar dos muitos beijos, jamais permitira as chamadas “mãos bobas”; hoje percebo, achando graça, que era devido certo medo do fogo abrasador junto aos indomáveis e lancinantes sentimentos que o jogo da sedução me provocava, até que o destino me trouxe o ex-marido, o companheiro e cúmplice, que, pela paciência, me convenceu a esperar sempre o melhor do amor e da vida e me trouxe também a certeza de que o “amor não se alegra com a injustiça, pois sua felicidade está na verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. Não sei exatamente quando resolvi que queria viver um grande amor, mas lembro-me bem que quando conheci meu ex-marido isto era latente. Já tinha passado a época do Lagoa Azul, do Endless Love.

Nesta época eu já estava mais apaziguada; namorava em casa, fazia jazz na Elzi Nascimento, gostava de ir à comunidade Luar, da Igreja Catedral e às vezes podia ficar lá embaixo no prédio até as 22 horas. Logo nos casamos e nos separamos, mas demoramos muito a nos largar. O divórcio somente veio após 18 anos que isto aconteceu. Éramos muito jovens, mas não foi, nem de longe, uma relação infeliz, embora complexa. Tive dificuldade e tenho, de desacreditar. A sorte é que sou boa em adequações e só pelejo na relação enquanto há manifestação deste desejo pela outra parte. Nunca fui controladora ou apegada. Tenho horror disto. Nunca me admiti qualquer dependência em detrimento de minha liberdade.

Tema recorrente em minha mente, que pensa sempre sobre um mundo melhor e uma vida coletiva justa e mais prazerosa, o amor sempre me acompanhou, graças a Deus. Depois de tantas idas e vindas, entendi que o amor é para sempre, mas que existe uma diferença entre amar e querer. Vi que o amor implica sempre, em compaixão e responsabilidades, acima de tudo. Sempre soube que sexo é outra estória.

Estive pensando no amor das relações carnais enquanto uma grande bobagem, principalmente nos últimos dois anos. Quando Batista Custódio me desafiou a escrever, achei graça. Pensei no como não gostei quando achei que a psicóloga achou que eu estava rejeitando viver um amor. Ora, fui lá para aprender a conviver com meus problemas de saúde e não tinha disposição para romance. Sem amor, nunca fiquei; tentei me explicar, mas tive preguiça, desisti. A vida é bruta, afinal… Romance é para quem tem e definitivamente, nos últimos meses, esta não era uma pretensão minha. Minhas questões são práticas, referentes ao que eu tenho, ao como me apresento, no dia a dia da lida, da labuta. Meus sentimentos estavam tranquilos. Não queria falar sobre amor, mas organizar minhas ideias para que isto ressoasse nos atos práticos, de fato. Dispensei a psicóloga, mas gostei da sugestão de trabalho que me deu o amigo desafiador, já que eu não tenho nenhuma dificuldade no campo deste tema, em que me considero muito bem resolvida.

Comecei a precisar escrever sobre o amor e a repensar os amores que tive. Ri sim, mas fiquei séria também; sem remorsos, sem mágoas, sem saudades nem melancolia. Senti estranheza. Desentendi a situação de me encontrar vazia. Senti dificuldade de externar sentimentos, opiniões… Sim, vivi grandes amores, não tenho dúvidas, pensei; tive aquele fraternal que você agarra precisando amar e tendo certeza de que vai fazer um milagre na vida do outro; tive dos amores que não vingam, tive aquele em que você se afasta para que o outro fique melhor do que vai ficar com você; tive daqueles super bacanas, em que você come junto com seu amor, vive momentos de riso, de canto, de estrada, de leveza e de assuntos sérios; aquele do apego bom, mas que controla e diverge, mas lhe faz acreditar que está dando certo e até aquele enganador e aquele com tudo isto junto. Não tive amor xoxo, tipo meio-termo. Já escutei “dizer a verdade é seu dom de iludir”, mas realmente não fui irresponsável e nem enganadora ou leviana, embora um pouco confusa, às vezes. Sim, tive alguns amores, menos do que tive a oportunidade de ter. Voltei a amar alguns amores rompidos, algumas vezes.

Mas, e aquele efetivo, para sempre? Voltei a pensar nele. E no fato de que se eu tivesse ouvido mais e melhor, a minha mãe, talvez não estivesse “sozinha” agora e nem teria tido as negatividades que tive na vida e nos amores e nem as alegrias, então agradeci o sublime amor de meus pais e pedi perdão profundamente. Sinto, no fundo, que minha vida não poderia ter sido diferente.

Entendi que o amor carnal e a paixão são inerentes e fundamentais à vida e que por isto, eu amava e fechava os olhos e me encostava às paredes desde cedo, quando ouvia músicas e via filmes; algo que nem existia enquanto matéria, de fato. Independem, os sentimentos, muitas vezes, do que está de fora da gente, e muitas vezes encaixamos algo em nossos sentimentos e é só idealização.

Já não acho que será enfadonho ou complicado amar, ou que um amor me complicará mais. Já não quero deixar de pensar no grande amor e nem desacreditar dele. Sei que ele não vai ter nada a ver com arroubos, mas com “a sorte de um amor tranquilo, com sabor de fruta mordida”. Acho sim, que pode ser que ele apareça.

Voltei, por pensar, a me lembrar dos calores, dos desarranjos. Nem sei quando comecei a desamar. De repentemente me dei conta de que é claro que eu não quero viver sem um grande amor. Não nasci para isto. Acredito piamente na sociabilidade inata do ser humano e tenho vontade sim, de poder me dedicar de novo, a um grande amor.

E o melhor: Já sei que o amor não maltrata, embora ele seja sofredor. O que maltrata é o mundo, quando se revela em desamor. Já internalizei que quem espera sempre cansa e nem sempre alcança, e que por isto, às vezes é preciso desistir do que se quer. Que “tudo posso, mas nem tudo me convém”. Que isso de amar sem querer nada em troca pode ser infantilidade, tolice, enganação ou obsessão. Que tudo neste mundo é relativo e apenas Deus, é absoluto!

Depois de décadas na onda do auto-conhecimento, entendo mais sobre amor próprio e sou capaz de me comprazer enormemente da minha própria companhia e da minha vida. Penso que posso ser capaz de amar e de conviver melhor com outra pessoa, de forma mais objetiva, menos fantasiosa. E tenho certeza de que se eu estiver novamente em um relacionamento de amor carnal, não me sentirei estacionada ou perdida no tempo e no espaço, pois o amor orienta e estimula; traz alegria, encantamento, fortalece, floresce, frutifica. Nunca prejudica.

Fico feliz ao perceber que o amor realmente não termina nunca e que em mim, é o mesmo de sempre, com tudo o que já me aconteceu e até com o que deixou de acontecer.   Mas vejo claramente que tudo ficou para trás. E agora, um sentimento profundo me invade, dando conta de que enfim, a senhora liberdade abriu as asas sobre mim.

Sem ansiedade e sem resistência, depois de tantas paradas para escrever sobre tudo isto, penso meu grande amor… De novo, percebo que existo!

Alexandra Machado Costa
A partir de DM. Leia no original
Imagem: Pexels
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Esta não é uma página pessoal. Todo o material é compilado por uma equipe de colaboradores, coordenada pela editora Ana Carolina Grignolli, jornalista especializada em comportamento.
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