Sugestão de filme que radicaliza sobre o tema:
 “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”
Em uma visita ao arquivo de cartas recebidas por Miss Corações Solitários, madame responsável pelo consultório sentimental deste blog, descobrimos a pergunta que mais se repete entre os corações aflitos:

Como é que se esquece uma pessoa que se ama?

Óbvio, a pessoa foi embora, o tal do amor acaba -acaba principalmente da parte dele, desalmado!

Como é que se esquece? A primeira coisa que me veio à cabeça foi copiar aqui a receita do miojo, como fez o sábio menino do Enem. Ou quem sabe o hino do Grêmio, composto por Lupicínio Rodrigues, talvez seja o mais dramático e bonito de todos.

A propósito, quem não leu, recomendo, sobre a redação do miojo, artigo de Inácio Araújo, é só clicar aqui, ó!

Repetimos a fatídica pergunta: como é que se esquece alguém que se ama?

Há quem diga que um amor só se cura com outro. No que caímos em outra pergunta: mas como arrumar outro se o anterior não nos deixa nem dormir direito, como se fosse um carnê atrasado com todas as prestações da existência?

Se existe uma grande farsa moderna é a tal da crença que a fila anda. Anda tanto quanto o trânsito de SP em dias de tempestades.

Há quem aposte em uma viagem exótica a um país idem. Escalar o Himalaia, essas coisas.

Já apostei em uma receita simples, que está a cada esquina: quando a vida dói, drinque caubói –sem esquecer o seu ídolo de dor de cotovelo preferido. De Bartô Galeno a Leonard Cohen.

Outro dia, na praia do Pina, vi um homem de corpo enterrado na areia, só a cabeça de fora, usando algo parecido: um tubo de Pitú e um Genival Santos bem alto –“Eu hoje quebro essa mesa/se meu amor não chegar…”

Uns resolvem se enfiar no trabalho, como houvesse alguma dignidade nisso. Há quem se entupa de barbitúricos ou tarja preta de estima.

Nessa grave hora, descrentes jogam suas fichas e dízimos no conforto das religiões. Uns viram fanáticos e juram-se curados. Acontece.

Há quem vá ao pai-de-santo e há quem procure os caminhos do orientalismo.

Na literatura há receitas malucas, como a do livraço “Tia Júlia e o escrevinhador”, de Mário Vargas Llossa, já lembrada neste blog: tome leite de magnésia, pois o amor seria apenas uma questão de prisão de ventre, não aquela batedeira de coração que você estava sentindo.

Nunca me deparei, porém, com nada mais sábio do que a receita de um colega cronista d´além mar, o gajo Miguel Esteves Cardoso, com quem tive o prazer de compartilhar uns copos no “Love Story”, em SP:

“As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar.

Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre.

Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas!”
A partir da Folha de S.Paulo. Leia no original
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