Eu havia encontrado um amor como o de papai e mamãe: família com irmãos. Eu achava que aquilo era um modelo para ser seguido. Fidelidade, compromisso. Mas eis que encontro uma presilha de uma outra mulher - eu supunha à época; e era mesmo - no carro de meu pai. Então havia uma outra configuração para minha suposição de felicidade. Estávamos todos juntos, mas havia mais gente, pelo menos de fora. Eu cresci, vi que o molde do pronto poderia ser contestado; não há uma conduta estática e pré-moldada a ser seguida. Papai e mamãe era um alternativa escolhida por eles e por uma maioria.

Imagem por remanufactory
O estranhamento veio quando o quê fazer com meu "desejo inoportuno" - como diria uma colega psicóloga - , o inoportuno para o desejo apregoado como normal. Aí me sentia estranho. Começava a desenhar minha pequena revolta para com o modelo. Eu me via com outros desejos, que se poderiam dizer papai-papai, sem intervenções externas. Absorvi este modelo, me apropriei. Fui feliz porque felicidade a gente molda como massa de modelar. Damos a forma e a intensidade das cores, do volume e do uso. E assim vamos petrificando outro alternativa para o amor.

Então me casei. Dois homens de fraque. Um branco e um preto. Outro molde a uma massa que já havia se desgastado. Veio a nova configuração familiar para o que antes era apenas uma tentativa. Família mudou acepção para dar lugar ao afeto. E de afeto, carinhos, e tentativas vamos seguindo. Não é assim?

Aí novas subjetividades surgem como se pudéssemos nos inventar, e não por conta de teorias que mudam também, mas por adaptações do desejo e da existência. E então, nos vemos vivendo um outro sujeito, incomodado como diria Foucault com a mesmice de nós mesmos. Uma espécie de implosão para a construção de um novo indivíduo. E aí continuei minha jornada pelo entendimento da configuração do amor. Por duas mãos fui carreado para uma outra forma de amor, na qual as hipocrisias se desvanecem, e um triângulo se fecha onde três se olham constantemente. É uma configuração de bases estáveis geometricamente, arquitetonicamente, três lados que se sustentam. Assim eu pensava. Mais uma alternativa para os moldes do pronto.

As desconstruções internas sempre deixam  em ruínas nossas ideias e a dos outros que nos veem. Seres subjetivos estão sempre se reinventando na tentativa de adequação à felicidade. Um escopo de todo bípede pensante. E assim seguimos na busca do pronto e acabado como modelo desta procura. E invariavelmente aportamos em nós mesmos. Paramos e atracamos no porto do si!

As escolhas são feitas durante essa nossa trajetória do amor, e nunca somos contemporâneos de sua verdadeira ontologia. Depois da perda ou depois do depois é que entendemos o quê fomos ou deixamos de ser. Uma solidão ao sentimento daquela busca pode ser uma outra alternativa. Rir por estar assim ou assado. Deveria ser assim numa tentativa de uma negociação com o desejo, com o amor. Mas será que poderíamos ficar o tempo todo nos reinventando, nos procurando? Seria uma possibilidade: ser achado, ser procurado como uma alternativa para nosso próprio buscar, o amor?

Difícil a tarefa de eu sentar diante a penteadeira do mesmo jeito que eu escovava meus cabelos há cincos, seis anos. Eu sou por excelência teórica uma mutação do meu "desejo inoportuno", tentando decantar por vezes diante do peso do amor - seja como for - para depurar algo de mim mesmo.  Mas tudo isso é muito complexo. Uma dinâmica que está literalmente escapando pelas minhas mãos. Mas o quê é isso se não o próprio viver?

Se não for, ainda estou por aprender.
Roberto Muniz Dias
Mestrando em Literatura pela UnB (Universidade de Brasília); formado em Letras Português-Inglês; bacharel em Direito e escritor. Assina o blog http://noposthumousparty.wordpress.com Escreveu ADEUS A ALETO em 2009 e foi premiado pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves com menção honrosa e lançado pela Editora Escândalo em 2011. Recentemente lançou seu último Livro: UM BUQUÊ IMPROVISADO. É também editor da Editora Escândalo.


A partir de Mix Brasil. Leia no original
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