Imagine que depois de muitos anos de casamento, você está quieto, com a vida estabilizada e, de repente, uma paixão antiga, reaparece após quase 50 anos. E ainda por cima querendo recomeçar o caso de amor! O filme "Amor eterno amor" (Innocense, 2000), conta uma história assim e fala da possibilidade de reinventar a própria vida, mas toca naquela dúvida cruel: e se você tivesse feito tudo diferente?

No filme, dois personagens resgatam uma paixão, que abala as estruturas do casamento de 45 anos de um deles. Dizem que não existem barreiras para o amor, mas será que isso não é uma fantasia? Épocas e culturas diferentes mostram que o conceito de amor – ou a maneira de demonstrar esse sentimento – muda bastante. Nos dias de hoje, por exemplo, psicólogos afirmam que o ideal do amor romântico faz com que a gente construa uma relação com a imagem que temos da pessoa, e não com o que ela é realmente. E com isso vêm as expectativas, as idealizações, reforçadas pelos contos de fadas e pelas histórias de amor, as novelas, filmes, e músicas.
Cena do filme "Amor eterno amor"

Mas essa visão de alma gêmea idealizada já foi bem diferente. Em muitas sociedades antigas os casamentos eram arranjados, fosse por necessidade financeira ou por influência da tradição e da religiosidade. Pouco importava o desejo dos envolvidos e, embora em algumas culturas como a indiana e a árabe isso ainda exista, a liberdade conquistada pela mulher ao longo dos séculos teve papel determinante pra que mudanças acontecessem nesse contexto.

Um casamento desfeito depois de 45 anos permite uma reflexão sobre as transformações da sociedade atual. No filme, a personagem Claire, ao deixar o marido, desfaz o formato básico de família – pai, mãe e filho. E se convida pra ficar na casa de seu grande amor. Este é um pequeno exemplo das possibilidades das novas configurações familiares, que vão muito além disso. Amor eterno amor é um filme sobre duas pessoas idosas que refizeram suas vidas guiadas pelo coração, mostrando que o amor pode ter muitas formas. Com direito a todas as contradições e ilusões que pode haver em histórias assim!

* * * 
Crítica:

Amor Eterno Amor não é o seu filminho água-com-açúcar hollywoodiano ou brasileiro, desses que invadem a TV a cabo todo dia. Para começar, a temática não é das mais comuns. Um casal de jovens, apaixonado na época da II Guerra Mundial, se reencontra 50 anos depois. Ambos na casa dos 70 ou 80 anos, a mulher casada, o homem viúvo, e de repente eles voltam a se amar.

O que parecia tão simples se torna um grande problema pelo simples fato de os dois serem velhos. A sociedade se apavora com o fato. O marido da mulher, por exemplo, sequer acredita nela quando ela diz que fez sexo com outro homem. E ambos estão velhos demais para, sei lá, largar tudo e se casar e ir morar em outro lugar, que é o que costuma acontecer nos filmes quando os personagens são mais jovens.

Mas esses não. Eles são velhos. Eles vão morrer logo logo. São todos sábios, controlados, pacíficos, maduros. E isso não deixa o filme ficar chato em momento algum. Pelo contrário: os atores, todos desconhecidos do grande público, dão um show de interpretação, e fazem de uma trama tão banal um debate sociológico muito mais interessante, envolvendo o preconceito contra os idosos, o preconceito contra o próprio amor, religião, morte, e outras coisas.

Enfim, não é nenhum clássico do cinema contemporâneo, mas ninguém deve se arrepender de assisti-lo. É para deixar pensando mesmo.

Fora isso posso ressaltar a trilha sonora e a fotografia, que parece careta na maior parte do filme, mas que pontua a trama com cenas lindíssimas em Super-8, provando que não é só para fazer video clipes e filmes de skate que essa bitola ainda está viva. A textura funciona a serviço da trama.

O filme é uma co-produção belga e australiana, filmado por um diretor holandês. Paul Cox foi o mesmo que dirigiu a biografia de Vincent Van Gogh, Vincent, em 1987. É bom saber que há cada vez mais cinema de qualidade na Austrália. Uma indústria cinematográfica de verdade, e não uma seqüência de êxitos exóticos que não vão durar nada. Estranho o filme ter demorado tanto tempo para chegar no Brasil, tendo sido lançado em 2000.

Ficha Técnica

Amor Eterno Amor (Innocence, Austrália, Bélgica, 2000)  -  Gênero: Drama, Romance  -  Duração: 94 min.  -  Tipo: Longa-metragem  -  Produtora: CinéTé, Film Victoria, Fireworks Pictures -  Diretor: Paul Cox - Roteirista: Paul Cox  -  Elenco: Julia Blake, Charles Tingwell¹, Kristine Van Pellicom, Kenny Aernouts, Terry Norris, Marta Dusseldorp, Robert Menzies , Chris Haywood, Norman Kaye, Joey Kennedy, Liz Windsor, Dawn Klingberg, Peter Berger, Kate Roberts, Michaela Cantwell
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Sobre Editor

Esta não é uma página pessoal. Todo o material é compilado por uma equipe de colaboradores, coordenada pela editora Ana Carolina Grignolli, jornalista especializada em comportamento.
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1 comentários :

  1. Amores passados, questões mal resolvidas... pedra no sapato de quem não consegue esquecer e seguir em frente. <3

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