Não fui festejar os 80 anos do meu querido Ziraldo, amigo de tantos anos, que – Menino Maluquinho em sua eterna juventude – fez trepidar a Gávea na noite de quarta-feira. Perdi o festão e não beijei o amigo. Não tinha clima pra mim. Naquele dia, num desses reveses que a vida apronta, fui enterrar um casal de amigos, que a fatalidade colheu no desastre do ônibus na estrada de Teresópolis (RS).

Com ele, o Oswaldo, muito pouco convivi. Ela, a Jussara, foi amiga desde os tempos de nossos filhos bebês. Morávamos todos num condomínio na praia da Barra quando eles, ainda casados com outras pessoas, apaixonaram-se e foram viver juntos. Na época, foi uma razoável saia justa, que acabou tornando-se confortável com o tempo, que é sempre o senhor da razão. Ela tinha um único filho; ele, três. Os quatro amigos do meu único, o Christiano.

Quando o Chris casou, eles tiveram que voltar do meio do caminho porque o carro enguiçara. Não os via há mais de 10 anos, mas sempre tinha notícias de como eram felizes, do quanto se davam bem, do quanto eram inseparáveis. Almas gêmeas pra valer, daquelas que a gente pensa só existirem nos romances.

A Ju sempre foi muito nervosa, muito aflita. Quando nossos meninos, pequeninos, brincavam na praia, ali na beirinha, com seus baldinhos e pás, volta e meia ela gritava, em pânico, porque achava que aquela ondinha que arrebentava quase na areia, levaria o Bonne, o filho único. Era medrosa. Sempre, de tudo.

Mesmo tantos anos depois, quando li que vários passageiros correram em pânico para o fundo do ônibus, sabia que ela estava entre eles. O que me confirmaram durante a tristíssima cerimônia do adeus.

Ninguém morre de véspera mesmo. O casal fora a Miracema passar o fim de semana e comemorar o aniversário de uma irmã dela. Foram de carro com um sobrinho, que regressou ao Rio no domingo à noite. Ela não quis voltar de noite: “ é perigoso, nós vamos de ônibus amanhã durante o dia”.

***

Ali, naquele velório onde revi tantas pessoas amigas, os meninos de então, hoje homens feitos, eram a prova viva de que nunca ninguém está preparado para a morte de seus pais. Muito menos quando ela vem de uma forma tão violenta, abrupta, como foi esta, que devastou a todos nós – o que dirá aos filhos. Olhava para eles – todos tentando ser fortes – e todos, lá no fundo dos olhos, tão desacorçoados, tão vulneráveis, tão tristes.

Nos olhos do meu filho, identifiquei o medo. Quase enxerguei as engrenagens em sua cabeça: “ e se fosse comigo?” O pavor da perda. O temor da dor que ela traz. A falta de palavras para consolar os amigos de toda uma vida – amizade já longa, numa turma na faixa dos 35 anos.

Mas, ao fim e ao cabo, é o doce amparo dos amigos que nos faz suportar a dor. E amigos não faltaram ali, amigos de várias gerações.

Para nós que ficamos, restou o consolo de um amor tão profundo, tão verdadeiro, que desafiou a frieza da morte: os dois foram levados juntos, para que um não fosse obrigado ao desgosto de viver sem o outro. Velados na mesma capela, desceram ao mesmo túmulo, onde repousarão para sempre. Juntos.

***

No dia seguinte a tanta tristeza, recebo um lindo livro. “Sombras” - poesias do ítalo-brasileiro  Franco Terranova, o fundador da inesquecível Petite Galerie, ilustradas por um time de respeito: o saudoso Millôr, Anna Bela Geiger, Krajcberg, Cildo Meireles, Áquila, entre outros. Dele pinço versos para homenagear a Ju e o Oswaldo:

“...ela veio de longe para encontrar o amor/ nós todos viemos de muito longe em busca da vida/ perdendo brinquedos na infância/ amigos amores sonhos”.

Anna Ramalho
A partir do JB Online. Leia no original
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