Confira trechos da entrevista com Regina Navarro Lins, que acaba de lançar O livro do amor, uma verdadeira história social do amor e da sexualidade desde a pré-história

Você vive um relacionamento amoroso feliz e estável? Não? Talvez esteja em busca do grande amor de sua vida. Que tipo de qualidades você espera encontrar em sua futura cara-metade? Carinho, sexo, companheirismo, bom humor, parceria? Ora, não é isso (e mais) o que todo mundo sempre esperou de um romance, de um namoro ou de um casamento? Pois a coisa não é tão simples.

Ao longo da história, as noções de relacionamento afetivo, sexualidade, casamento – o amor, enfim – passaram por incontáveis mudanças. Volte ao século XVIII e verá que o amor romântico, esse que vemos nos finais felizes de filmes e novelas, era motivo de chacota. Retroceda mais, até o século III, e verifique que para os seguidores do cristianismo, o casamento totalmente casto era o ideal – só se podia amar a Deus. Voltando outro tanto no tempo, saiba que na Grécia antiga os soldados mais bravos também eram ardentes amantes homossexuais.

Essas e outras tantas revelações são catalogadas nos dois volumes de O livro do amor, que a psicanalista especializada em amor e sexo Regina Navarro Lins acaba de lançar (editora Best Seller). Autora de dez outros livros, incluindo o sucesso A cama na varanda, Regina passou os últimos cinco anos pesquisando a história do amor na civilização ocidental. A psicanalista, que por anos manteve uma coluna no Jornal do Brasil na qual respondia a dúvidas afetivas de leitores, mergulhou em mais de 200 livros em seu estudo – da Arte de amar, de Ovídio, datado do ano 2, às teorias feministas de Simone de Beauvoir em O segundo sexo, de 1949.

O resultado – dividido em dois volumes: o primeiro vai da pré-história até o século XVII, o segundo segue até os dias atuais – é um painel surpreendente das alterações pelas quais o conceito “amor” passou até chegar ao ideal romântico contemporâneo. “Acreditamos que o amor sempre foi assim como o é hoje, mas ele é uma construção social”, afirma Regina.

TRECHOS DA ENTREVISTA

As regras do amor já foram diferentes, certo? Como isso funcionava? Os casamentos eram combinados, havia interesses financeiros e sociais em jogo...

No século XIX o casamento por amor passou a ser uma possibilidade, mas mesmo assim, se formos estudar a literatura da época, vemos que ainda há muitas uniões feitas por interesse ou outros motivos que não o amor romântico. No período do Iluminismo, por exemplo, ninguém queria ser escravo das emoções. A melhor descrição desse sentimento está no romance de Choderlos de Laclos, As ligações perigosas, em que o ideal romântico do amor é totalmente ridicularizado. A partir do século XX, todo mundo passou a casar por amor, o que começou a gerar expectativas diferentes – antes esperava-se que o homem fosse um bom provedor e que a mulher fosse uma boa mãe e dona de casa, e só. O casamento durava a vida toda, sem ansiedades nem grandes expectativas. Mas, com a união entre o casamento e o amor, passou-se a esperar que o parceiro também trouxesse realização afetiva e prazer sexual. E aí começam as frustrações. O amor romântico contemporâneo é calcado na idealização e traz expectativas e ideais que não se cumprem. Com a convivência, é impossível continuar idealizando o parceiro. A sedução se perde. Essa ideia de que o casamento será uma “fusão” de duas pessoas em uma só é uma mentira, cria uma dependência terrível entre as pessoas.

Em seu livro, vemos que a instalação do patriarcado – sob o qual o homem é o chefe inconteste da família, e superior à mulher – surgiu há cerca de 5 mil anos. Como isso se deu?

Por milênios, a humanidade não ligou o sexo à reprodução. Os casais faziam sexo, o homem saía para caçar e a mulher ficava na caverna. Quando ele voltava, a mulher estava grávida ou havia nascido uma criança. Acreditavam que ela tinha sido inserida no ventre materno por um sopro que vinha do mar, das grutas, da floresta. Quando se começou a criar animais é que a ficha caiu. O homem notou que as ovelhas desgarradas não procriavam. Aí surge a ideia de que o macho é que era o único responsável pela procriação e de que a mulher era só um “receptáculo”.  Essa ideia perdurou por milênios.

De que forma essa noção mudou nos últimos séculos?

Antes da Revolução Industrial, a mulher era aprisionada aos filhos, passava a vida inteira parindo, pois os filhos eram vistos como bens valiosos – representavam mais mão de obra para ajudar na lavoura. A chegada das máquinas ajudou a liberar essa necessidade de procriação.  No século XIX, se comprovou cientificamente que ambos, mulher e homem, têm participação igual na concepção. A partir da popularização da pílula anticoncepcional, nos anos 1950, o sistema patriarcal começa a perder suas bases, uma mudança que se consolidou com a gradativa liberação feminina. O patriarcado milenar oprime as mulheres, mas também os homens. Eles têm de corresponder ao ideal masculino da sociedade patriarcal de força, sucesso, poder. Têm de ser corajosos e ousados, não podem demonstrar emoções nem “brochar”.

A partir da Revista História Viva, n. 109
Vídeo: Uma história de amor do mundo de engrenagens e parafusos.
Curta de animação de 2010.
Inspirado por Lotte Reiniger obras e Antony Lucas Jasper Morello filme.
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Esta não é uma página pessoal. Todo o material é compilado por uma equipe de colaboradores, coordenada pela editora Ana Carolina Grignolli, jornalista especializada em comportamento.
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