BOA SORTE, MEU AMOR: VOCÊ É O QUE VOCÊ PERDE


Histórias de amor são figuras carimbadas do cinema, com comédias românticas superficiais, dramas de época intensos e a busca do homem por romance. Com o tempo, o cenário pode ter mudado um pouco, mas acaba sempre se resumindo a duas pessoas que se amam e, desafiando todas as peripécias do destino, querem estar juntas quando as letras dos créditos finais subirem. O que dizer então do antirromance do impacto entre a música e o silêncio em “Boa Sorte, Meu Amor”, do diretor pernambucano Daniel Aragão?

Ele, Dirceu, o silêncio, descende da aristocracia latifundiária de Pernambuco e trabalha no ramo da demolição no Recife. Ela, Maria, a música, é uma pianista também de origem sertaneja, vivendo na cidade grande em busca do sucesso. Ele aspira por um mundo estável e presente. Ela tem alma de artista e pensa que nada é como deveria ser. Quando os dois cruzam o mesmo caminho, suas vidas nunca mais serão as mesmas. Duas visões da realidade brigando para tentar ser uma só.

Abordar o amor romântico nas telas pode ser algo recorrente, mas os caminhos para fazê-lo podem tomar atalhos surpreendentes, como no filme em preto e branco de Aragão. Muito além de contar a história de um casal, a obra discute dois sentimentos cada vez mais presentes na pós-modernidade, a luta entre o sentimento de buscar a segurança, o que é tido como já acertado, ou lançar-se ao desconhecido, ao que precisa ser conquistado, a eterna briga entre razão e sentimento, tão antiga quanto as histórias de amor.

Destaco o fato de ser em preto e branco porque de imediato a trama provoca, trazendo em um filme que se passa em tempos atuais características de produções antigas – talvez em uma tentativa corajosa de marcar a eterna espiral entre passado e presente, a que todos nós, incluindo os personagens ficcionais, estamos submetidos. E a experimentação não se limita a este aspecto do filme, tendo a dicotomia entre silêncio e som trabalhada de forma bastante estimulante, tirando o público da zona de conforto e chamando à ação.

Este longa acompanha uma tendência mais recente de histórias de amor complicadas, onde se entregar ao sentimento não é exatamente a coisa mais fácil a se fazer, quando tanto está em jogo e todos os obstáculos são colocados pelo próprio casal e suas bagagens emocionais, mas acrescenta ao gênero por mostrar todos estes dilemas de forma nada óbvia. A história estimula o espectador a cada minuto, seja pela imagem, seja pelo som, seja pelos impasses da trama.

“Boa Sorte, Meu Amor” é o primeiro longa do diretor Daniel Aragão. Antes disso, seus curtas acumularam prêmios e participações em diversos festivais ao redor do mundo. Aragão trabalhou como assistente de direção em “Cinemas, Aspirinas e Urubus”, de Marcelo Gomes.
Bruno Maranhão
A partir de Cinema com Rapadura. Leia no original
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