Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim.Mas o que mais dói é saudade.

Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Doem essas saudades todas.

Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua pintando o cabelo de caju. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango assado, se ela tem assistido às aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se
ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.

Martha Medeiros (Julho/1998)

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Esta não é uma página pessoal. Todo o material é compilado por uma equipe de colaboradores, coordenada pela editora Ana Carolina Grignolli, jornalista especializada em comportamento.
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5 comentários :

  1. Puxa, me vi sentindo saudade...
    Paz e bem

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  2. Realmente a saudade de um amor que acabou pode ser imensa ... mas tão doída quanto é a saudade de um amor extremamente vivo que encontra-se distante.

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  3. Será que esse tipo de saudade algum dia passa? É possível que apenas uma das partes continue amando a outra, por toda a vida, sem ser correspondida?

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  4. saudade de alguem que voce sabe que nunca podera ficar consigo por estar comprometido com outra pessoa, é ainda pior, voce não sabe viver sem ele, e tem que aprender, ou fingir que vive, mas tudo o que voce faz é com o pensamento nele, seus planos e tudo, ai voce pergunta pk a vida foi injusta consigo, pk voce nao conheceu a ele antes. doi doi tanto, que não da vontade de viver, avida p si perde sentido.

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  5. Eu me peguei pensando em você e quanta saudade de ti.Como dói de ter tão longe e ao mesmo saber que eu jamais de pediria para deixar tudo e ficar do meu lado.

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