Eles tiveram um romance; não um grande romance, mais tipo um caso.

Ele às vezes sumia, depois aparecia, e assim foram levando, até que um dia acabou de vez; depois de um tempo ela nem lembrava dele, e nunca mais se viram, nem por acaso, andando numa rua.

Anos depois, na sala de embarque de um aeroporto, ela viu lá longe, sentado, alguém que parecia ser ele. Será? Como estava de óculos escuros, disfarçou e olhou. Não, não podia ser. Não podia ser, só que era.

Um começo de calvície, um paletó meio churreado e um ar de derrota: tudo o que ela achava lindo e charmoso no tempo em que achava que estava apaixonada.

Respirou fundo e teve medo que ele a reconhecesse e tivessem que conversar. Sentou-se bem longe e ficou de olho, para evitar o encontro.

Daria a vida, naquela hora, por um cigarro, mas tinha deixado de fumar, e nem poderia, num aeroporto. Pegou o jornal e fingiu que lia as notícias econômicas, enquanto pensava nas loucuras que fez por aquele homem, e nas que teria feito, se ele tivesse deixado.

Pensou também que poderia ser mais normal, passar por ele e dizer um oi, perguntar como vai a vida, mas não teve coragem. Tentou pensar em outra coisa, mas não conseguiu, só queria embarcar logo, e que ele não a visse, pelo amor de Deus.

Depois do que lhe pareceram horas, o embarque foi dado, o que significava que teria que passar pelo lugar em que ele estava, se é que ele ainda estava lá. Tomou coragem, respirou fundo, e foi.

Ele continuava no mesmo lugar; ela ajeitou os óculos e passou, com um olhar distraído, mas olhando pelo rabo do olho. E teve a dolorosa impressão que ele a tinha visto e que não tinha se dirigido a ela pelos mesmos motivos: talvez a tivesse achado feia, velha, churreada, com ar de derrotada pela vida.

Foi das primeiras a entrar no avião e sentou-se bem no fundo, para ver se ele ia no mesmo voo, o que felizmente não aconteceu.

Pensou em como o mundo é cruel, e quando a comissária de bordo passou oferecendo um lanche, pediu um uísque -só que na ponte aérea não servem bebidas alcoólicas.
Teve que segurar o tumulto dentro dela até chegar em casa, tirar o gelo e tomar não um, mas três, um depois do outro.

E parou no terceiro porque, se continuasse, seria capaz de cair em prantos; por ele, por ela, por tudo. 


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Sobre João Casmurro

Esta não é uma página pessoal. Todo o material é compilado por uma equipe de colaboradores, coordenada pela editora Ana Carolina Grignolli, jornalista especializada em comportamento.
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8 comentários :

  1. eu teria parado bem em frente e dito oi, como vai? Que mania as pessoas têm de preferirem viver na dúvida, na dor, no desconforto.Que mania de não querer gastar o amor até o fim simplesmente para carregarem uma idéia de coisa eterna qdo na verdade não passa de coisa mal resolvida. Oi, como vai, vem cá, me dá um abraço...tão fácil assim.

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  2. Ola. estou passando para que saibas que postei um post seu, mas com seu endereço...espero que não se zangue..E coisa semelhante aconteceu com uns conhecidos...Se não gostar, eu retirarei. bjs e fique com Deus

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  3. Nossa quantos de nós já não fizemos isso! O pior arrependimento, pois aquele momento foi único e não volta.

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  4. Nossaa!

    E quem não sonha com um reecontro desse? No final, eu falaria.

    Abs.

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  5. Sonho todos os dias com um reencontro, uma coincidencia de lugares, simplesmente para ter a chance de puxar o assunto...isso me mata a cada dia...

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  6. vivemos entre encontros e desencontros, as vezes não sabemos se estamos fugindo dos outros, ou de nos mesmos,nossos pensamentos nos levam a tantos lugares,mas nunca apagam aquilo que um dia vivemos...sensatos ou insentos nao podemos fugir da nossa realidade...

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  7. amiga voce foi tola demais sabedoria beijossssssssssss

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  8. Temos que avaliar que a amiga sentiu-se confortável em agir da maneira como agiu.Talvez se tivesse tido uma reação mais arrojada poderia estar hoje arrependida.Cada um é de um jeito, não somos nós que devemos julgar as atitudes das pessoas, a vida se encarrega de arrumar o nosso destino.Devemos estar atentos às nossas intuições e aos sinais que vão surgindo em nossa caminhada.

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