DOCUMENTÁRIO CONTA O AMOR DE SARAMAGO E PILAR


Se você já teve o prazer de ler um livro do escritor português José Saramago, notou que as dedicatórias dos livros escritos desde o final dos anos 80 vêm endereçadas a uma certa Pilar – aquela “que ainda não tinha nascido e tanto tardou a chegar”, como escreveu na abertura da obra autobiográfica "As pequenas memórias", de 2006.

Essa havia sido a forma encontrada por Saramago, que morreu aos 87 anos em junho desse ano, de agradecer e retribuir o amor que encontrou na jornalista espanhola Pilar del Río, hoje com 60 anos. Foram 24 anos de relacionamento intenso, cuja base foi construída por companheirismo, respeito, trabalho, diversão e amor, muito amor.

José Saramago e Pilar del Río, em cena do documentário sobre a história de amor do casal
É isso que podemos comprovar pelo belo documentário "José & Pilar", do diretor português Miguel Gonçalves Mendes. Um filme que levou 4 anos para ser feito e acompanha a intimidade simples e muito bem-humorada do casal, durante o processo criativo de "A viagem do elefante", de 2008.

Leia abaixo entrevista com Pilar, que esteve no Brasil em setembro para lançar o filme no festival de cinema do Rio de Janeiro.

Pelo filme, notamos que você era de fato o “pilar”, o equilíbrio de Saramago. Em um determinado momento, ele contesta o fato de o lançamento do livro ser em Azinhaga (cidade natal do escritor) e você diz que ele não está fazendo isso por ele, mas sim por sua aldeia. Ele concorda no mesmo instante. Sempre foi assim?

Pilar del Río – Sim. Eu sabia o que ele pensava. Quando no filme, depois de ter um dia corrido e cheio de atribulações, ele se confunde e começa a frase com “as verdades universais”, eu sabia que o que queria dizer era “as verdades plurais”. Afinal, não há uma verdade absoluta. Elas são plurais, tão plurais como os seres humanos.

Saramago ganhou o prêmio Nobel em 1998, dez anos depois de vocês terem se casado. A partir daí, a rotina de vocês mudou muito?

Não. O que aumentou, na verdade, foram as solicitações. Antes de ganhar o Nobel ele já tinha uma agenda complicada, bem preenchida. Ele só foi obrigado a negar mais os convites que faziam. Era difícil gerir o “inferno” que era a minha casa – “inferno” no sentido de que as pessoas e entidades com problemas, necessidades e angústias viam a nossa casa como ponto final. Lá era sempre o último recurso utilizado por pessoas e causas, como as do Timor Leste, dos zapatistas, dos sem-terras, dos imigrantes africanos na Europa, da guerra contra o Iraque, que ele participou de forma ativa.

Ao mesmo tempo, Saramago parecia não se sentir uma das pessoas mais influentes do mundo...

Ele era aquela pessoa que você viu no filme: que vivia com seus cãezinhos, que almoçava e jantava na cozinha. Ele era tão importante, mas tão importante, que nem sequer se considerava importante. Era tão importante que quando tomava café, lavava a sua própria xícara. Não era como esses idiotas multimilionários que precisam de uma corte, de dezenas de secretários, e não viajam se não for na primeira classe ou em avião privado. Isso tudo era merda.

Você chegou a interferir alguma vez nos livros que Saramago escrevia?

Não. Eu era simplesmente a tradutora das obras do português para o espanhol. Algumas vezes, por causa do tradução, que eu sempre lia em voz alta para ele conforme íamos trabalhando, ele achava melhor trocar por um sinônimo alguma palavra em português mesmo. Houve apenas uma vez que eu interferi por achar que havia uma inconsistência. No livro "Todos os nomes" (de 1997), ele havia escrito que a casa estava sem luz e, de repente, ouvia-se uma mensagem da secretária eletrônica. Eu contestei e ele disse “mas o telefone não tem nada a ver com a luz elétrica!”. E eu respondi: “mas a secretária eletrônica está ligada à corrente elétrica”. Ele acatou (risos).

A partir da revista Marie Claire . Leia no original
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Sobre João Casmurro

Esta não é uma página pessoal. Todo o material é compilado por uma equipe de colaboradores, coordenada pela editora Ana Carolina Grignolli, jornalista especializada em comportamento.
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1 comentários :

  1. Vou comprar um livro dele , nunca li nenhum. Bjos achocolatados

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