Não tinha coração. Nasceu sem. Não que isso fosse um problema, uma crise no sistema, uma questão por aí além. Não tinha coração. E isso era até uma vantagem, sublime malandragem, tendo em vista que quem tem coração costuma ser bobo. E ele, que não era nenhum menino de coro, nascera para se dar bem.

Raimundo viveu sem escrúpulos, roubou doces aos miúdos, vendeu a mãe várias vezes, mas nunca entregou. Seguia à risca o seu plano selvagem, para tudo tinha coragem, até que um dia, daqueles normais em que apetece dar banho ao cão ou visitar a tia, encontrou no Facebook o perfil de Maria Rita (ou Rita Maria, nunca soube ao certo), menina de sorriso aberto, um olho verde e outro cor de anil.

Rita Maria fizera um post com uma promessa, pois sofria de uma terrível mazela: amava ao próximo como a si mesma. O problema é que o próximo era sempre o que estava mais perto, fosse branco, preto ou amarelo, sem nenhuma discriminação de idade, sexo ou credo. Ela sofria com aquele amor em forma de peste, daí que dissera que se pudesse não amar algum homem subiria de joelhos o Evereste.

Raimundo reparou na foto de Maria Rita e apaixonou-se à primeira vista, sentindo uma dor no peito. Era um coração que ali nascia meio sem jeito. Demorou, mas ela adicionou-o como amigo. Como por um milagre, não se apaixonou. Pelo contrário, sentiu escárnio, viu nele um pobre, um lixo, um chulo de feia tez. Raimundo, enamorado, passou a postar no Face vídeos e poesias bobocas, típicas de um idiota que amava pela primeira vez.

O coração de Raimundo cresceu até o tamanho de uma bomba, redonda, com um pavio aceso na ponta, prestes a rebentar. Pior ficou quando, depois de algum tempo, Rita Maria, num gesto de total desprezo, clicou, com um ar meio farto, ao lado da foto do parvo, no botão de eliminar.
Desprezado, a bomba do coração de Raimundo estourou, voando pedaços de amor para todos os lados, emporcalhando o teclado do seu computador. E Maria Rita, verdadeira flor do mal, publicou no Face, um bocado na pressa, que saíra para pagar a sua promessa, rumando para o Nepal.

Lá chegando, apaixonou-se por um monge chamado Ming, outrora amante do Sting. Ele, com um certo azedume, ignorou a que se achava bela. Que morreu ainda donzela, congelada, bem pertinho do cume, ao lado de um arvoredo. De Raimundo, o que queria ser dono do mundo, ninguém guardou memória. Mas fica a mensagem da sua história, com forte apelo moral: mesmo em tempos de rede social, quem tem coração tem medo. 

Edson Athayde
A partir de Ionline.Leia no original
Compartilhe no Google Plus

Sobre João Casmurro

Esta não é uma página pessoal. Todo o material é compilado por uma equipe de colaboradores, coordenada pela editora Ana Carolina Grignolli, jornalista especializada em comportamento.
    Deixe seu comentário
    Comente no Facebook

0 comentários :

Postar um comentário

Deixe aqui seu recado ou depoimento, de forma anônima se preferir. Respeitamos a sua opinião, por isto recusaremos apenas as mensagens ofensivas e eventuais propagandas. Volte sempre!

REGRAS PARA COMENTÁRIOS:

O espaço de comentários do Blog Amor de Almas é essencialmente livre, mas pode ser moderado, tendo em vista critérios de legalidade e civilidade. Não serão aceitas as seguintes mensagens:

1. que violem qualquer norma vigente no Brasil, seja municipal, estadual ou federal;
2. com conteúdo calunioso, difamatório, injurioso, racista, de incitação à violência ou a qualquer ilegalidade, ou que desrespeite a privacidade alheia;
3. com conteúdo que possa ser interpretado como de caráter preconceituoso ou discriminatório a pessoa ou grupo de pessoas;
4. com linguagem grosseira, obscena e/ou pornográfica;
5. de cunho comercial e/ou pertencentes a correntes ou pirâmides de qualquer espécie;
6. que caracterizem prática de spam;
7. são aceitos comentários anônimos, contanto que não infrinjam as regras acima.

A REDAÇÃO:

1. não se responsabiliza pelos comentários dos frequentadores do blog;
2. se reserva o direito de, a qualquer tempo e a seu exclusivo critério, retirar qualquer mensagem que possa ser interpretada contrária a estas Regras ou às normas legais em vigor;