Num fim de tarde, no inverno de 1950, tio Dirceu conheceu Yolanda na confeitaria São Carlos, no bairro do Brás, em São Paulo. Ele comprava meia dúzia de sonhos recheados de creme, para agradar à mãe, minha vó Eulália, que estava se recuperando de uma gripe. Já Yolanda, numa saia xadrez, plissada, esperava por um bonito bolo de chocolate que encomendara para o aniversário de uma amiga. Yolanda saiu primeiro e, ao sair, trocou com Dirceu um olhar e um sorriso quase imperceptíveis. Poucos minutos depois, ouviu-se uma freada violenta na rua, e muitas pessoas que se encontravam na confeitaria saíram até a calçada, atraídas pelo ruído. Tio Dirceu saiu também, logo identificando, pela saia xadrez, plissada, o corpo de Yolanda estirado no meio da rua, já cercado de curiosos. A um metro de distância, o bolo de aniversário jazia transformado numa pasta de chocolate.

Em 2006, durante a Copa na Alemanha, após um almoço na casa de tia Nancy, ele contou a um pequeno grupo familiar, em que eu me encontrava, como aquele episódio de 1950 tivera prosseguimento e no que resultara.

— Quando me dei conta, estava enfiado na ambulância, acompanhando a moça, como se a conhecesse. Mais: como se com ela eu tivesse a intimidade de um parente, um amigo, um... namorado. E foi isso que eu acabei falando quando o médico da ambulância me perguntou o que eu era daquela moça acidentada: namorado, respondi. Ele me olhou sem muita simpatia, e lá fomos nós para o hospital.

Em 1950, meu tio Dirceu tinha 22 anos e Yolanda, 18. O dia em que isso aconteceu ele lembrava muito bem: 15 de julho, véspera da nefasta decisão da Copa do Mundo, no Maracanã, quando o Uruguai nos tirou o caneco das mãos dentro da nossa própria casa. É tio Dirceu quem continua contando:

— Chegando ao hospital, a jovem, de quem eu ainda nem sequer sabia o nome, foi prontamente atendida, verificando-se que o seu estado geral era bom, mas que estava com uma fratura na perna direita.

E, para que a história não se prolongasse além do razoável, tio Dirceu foi direto ao desfecho.

— Os pais de Yolanda logo chegaram ao hospital, onde eu permanecia na sala de espera, pensando nos sonhos, já pagos, que tinham ficado sobre o balcão da padaria. Contei tudo o que acontecera, eles me agradeceram, esperaram que a perna da filha fosse engessada e me pediram para que eu entrasse no quarto, pois Yolanda desejava me agradecer também. Quando entrei, trocamos — Yolanda e eu — um olhar, um olhar tão terno que me dei conta, instantaneamente, de que encontrara, naquela jovem, o grande e definitivo amor da minha vida.

— Assim, de repente, tio? — indagou meu primo Nelson, o único ali presente que estava ouvindo essa história pela primeira vez.

— Assim, de repente — continuou ele. — No dia seguinte, domingo, fui à casa da família, atendendo ao convite que me fizeram, onde participei de um churrasco e ouvi, pelo rádio, o jogo em que o Brasil perdeu a Copa para os uruguaios, por 2 a 1. Começamos a namorar, ficamos noivos e nos casamos um ano depois.

Nesse momento, tia Yolanda apareceu na varanda.

— Estava contando aos jovens aqui como nos conhecemos na Copa de 1950 — disse ele, abraçando a mulher.

— Outra vez, Dirceu? — exclamou tia Yolanda, com fingida surpresa. — Você não se cansa de contar essa história?

— Se me cansasse — disse ele —, seria como me cansar de nós dois.

Beijaram-se discretamente e assistiram, sempre apaixonados, aos jogos da Copa de 2006, em que a Itália foi campeã.

Por que me lembrei disso tudo? É simples: tia Yolanda nos deixou há duas semanas, aos 78 anos. Aos 82, meu tio continua forte, mas sabe que a felicidade também foi embora, acompanhando a parceira com quem vivia fazia 59 anos. Ainda assim, atendendo à insistência da família, reuniu-se a nós para assistir ao jogo do Brasil contra a Costa do Marfim. Não se empolgou com a nossa vitória por 3 a 1. Tenho a impressão de que tio Dirceu nunca mais voltará a se empolgar com qualquer coisa neste mundo. A história de amor que começou na Copa de 50 encerrou-se na Copa de 2010.

Sim, a história acabou, mas o amor continua. E continuará enquanto tio Dirceu estiver vivo para lembrá-lo. 


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Sobre João Casmurro

Esta não é uma página pessoal. Todo o material é compilado por uma equipe de colaboradores, coordenada pela editora Ana Carolina Grignolli, jornalista especializada em comportamento.
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3 comentários :

  1. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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  2. Cheguei aqui através de uma pesquisa q fiz no google sobre uma mensagem...

    Adorei,amei e ja estou seguindo...

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  3. Fernanda Mourajulho 01, 2010

    Pára tuuudo!!!!
    Que texto lindo, noossaaa fiquei super emocionada agora.
    O amor é assim mesmo....

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