Ao chamar de velhos os velhos, acabei ganhando algumas reprimendas durante meu passeio quase diário pelo Leblon. Pois é. Já foi uma caminhada de todos os dias, por um itinerário quase sempre igual, que se encerra na Livraria Argumento ou no Garcia & Rodrigues. Agora, escrevendo novela, esse modesto passeio não é mais diário, apenas frequente.

Mas voltemos aos velhos que não gostam de ser chamados de velhos. Quase todos eles usam aquele conhecido argumento de que velho significa fora de uso. Portanto, é depreciativo. Digo que não foi esse o significado que vestiu a palavra na minha última crônica. E que, nos dicionários, velho é também sinônimo de idoso, designação que eles todos elegem como a melhor. Eu apenas exerci o direito de preferir uma palavra à outra. Afinal, a mim mesmo chamei de velho, já que a tal terceira idade, para efeito estatístico, começa aos 65 anos e eu já superei essa marca. Nesse momento lembro a um interlocutor que as crianças não são chamadas de seres da primeira idade, mas de crianças.

Antes que eu voltasse ao meu passeio, uma senhora entrou na conversa e me garantiu que essa preferência pela palavra velho pode até encontrar adeptos entre os homens, mas jamais entre as mulheres, já que a vaidade feminina optou pela eterna juventude, ainda que seja apenas no coração. Teria ela mais ou menos 85 anos. Bonita, olhos azuis ainda brilhantes, elegante, numa magreza saudável. Com ela conversei. Fiquei sabendo que caminha todos os dias pelo Leblon e que por várias vezes cruzou comigo. Não faz caminhadas em ritmo de marcha. Não. Ela anda simplesmente, mais ou menos como eu: faz compras, para na banca de jornais, perde alguns minutos lendo os cartazes dos cinemas, vai ao banco etc. Faz tudo a pé, prazerosamente. Uma graça de mulher. Conta que estudou na Escola Normal, que aprendeu e lecionou piano, seu instrumento preferido. E que persegue pela cidade os concertos de Nelson Freire. Digo que nos parecemos nessas preferências, e recomendo que ouça a Rádio MEC, cuja programação privilegia o piano. Ela me faz anotar o número que sintoniza a estação: 98,9. E assim nos despedimos. Quando já estávamos a uma boa distância, caminhando em sentidos opostos, eu a ouvi me chamando de volta. Fui até ela.

– Esqueci de lhe dizer que meu pai era muito parecido com o pai de uma daquelas senhoras idosas da sua crônica. Ele também tinha o culto da inteligência e do caráter. Só dava livros de presente, mesmo para as pessoas que declaravam não gostar de ler. Uma vez deu Relíquias da Casa Velha, de Machado de Assis, a um verdureiro português, analfabeto, que servia as famílias da nossa rua, na Tijuca. Quando eu chamei a atenção dele, lembrando que o pobre homem não sabia ler nem escrever, ele me respondeu:

– Não sabe, mas vai saber, porque me disse que quer muito aprender. E você é quem vai ensiná-lo.

Pois foi assim que, menos de dois anos depois, o verdureiro José deixara de ser o analfabeto do bairro, já tendo lido, além de Relíquias, o romance O Guarani, de José de Alencar. Eu fiquei encantado com essa história e perguntei:

– E a senhora alfabetizou mais alguém, além do verdureiro José?

– Sim – ela me respondeu. – Meus oito filhos. Depois de alfabetizados é que eles foram para a escola.

– Oito? – me admirei eu.

– Foram dez, mas dois não vingaram.

– Parabéns. E seu marido está assim, forte e disposto como a senhora?

– Ah, não, infelizmente não. O ex-verdureiro José morreu há dois anos.

Quase caí para trás.

– O ex-verdureiro José... Ah, então a senhora...

– Isso mesmo. Casei-me com o homem a quem alfabetizei – e arrematou, sorrindo, saudosa:

– Fui feliz por 63 anos! E devo essa grande felicidade ao meu pai, a Machado de Assis e a um verdureiro que queria aprender a ler!

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3 comentários :

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  2. Meu Mundo Quadrado mudou de ares...

    Tenho Novo Blog só ta faltando você para ele ficar completo para mim...

    www.sauloprado.blogspot.com

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