O segundo romance da chilena Carola Saavedra, 36, "Flores Azuis" (Companhia das Letras), é uma surpreendente história de amor dos tempos da internet. Durante nove dias a personagem escreve cartas na tentativa de seduzir e reconquistar o homem o homem que dela se separou. Entregue em envelopes azuis, as cartas relatam momentos de convívio e a falam dos dias anteriores ao rompimento. No entanto, no endereço onde as cartas são entregues não é mais o apartamento do amado. Quem recebe as cartas é o novo inquilino, Marcos, que acabou também de se separar. Movido pela curiosidade, Marcos lê, fica entusiasmado, se apaixona pela mulher e começa a procurá-la pela cidade.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, a autora traçou um painel da obra e de suas motivações. Acompanhe:

Porque você escolheu as cartas como meio de comunicação. Elas já não foram esquecidas com a internet?

Carola Saavedra - Escolhi a carta porque a personagem está presa ao passado. A carta para ela é uma forma de ocupar espaço --porque ela queria de alguma forma atingir esse homem--, de continuar fazendo parte da vida dele. O e-mail seria alguma coisa muito abstrata, pois ele poderia facilmente deletar. Na cabeça da personagem a carta é algo concreto, ocupa um espaço. Ela diz em algum momento no livro assim: "mesmo que você não abra o envelope, que você não leia a carta, ela existe, está ali, ocupa espaço e você vai ser obrigado a jogar fora ou fazer alguma coisa com ela". A escolha pela carta é uma ideia do concreto, é algo que ocupa espaço. Também está relacionado com a personagem apaixonada, que é romântica, que tem um amor extremo e exagerado. Além da relação com a nostalgia, da dificuldade de abrir mão do passado ou daquilo que já passou.

O ato de escrever cartas pode ser associado com a forma de escrever romances? Qual a relação que você tem com as cartas, elas são elementos da narrativa da ficção ou fazem parte da sua realidade?

Tudo o que você escreve tem algo relacionado com a escritora; mas o que, exatamente, é muito difícil tentar destrinchar. Por exemplo, no romance "Toda Terça" tem um momento que a personagem está conversando com o analista e ela mente para ele. E ele diz para ela: "Não importa [você mentir], porque o fato de você ter escolhido essa mentira e não outra já revela alguma coisa sobre você." Então é um pouco de como eu vejo essa relação do escritor com o que ele inventa e o que é realmente dele. Claro, eu não vivi as coisas dessa forma que escrevo, mas o fato de eu ter escolhido construir essa personagem, escrever sobre esse assunto revela algo, mas não de uma forma direta.

No seu primeiro romance, "Toda Terça", o que permeia a narrativa é a falta de amor e a impossibilidade que os personagens têm de amar. Como é inverter a situação neste livro? Escrever sobre isso foi uma forma de se livrar dos sentimentos extremos?

Eu queria trabalhar com o outro extremo, amar demais, o exagero. Acho até que a personagem é bastante exagerada, porque na verdade eu queria trabalhar com o extremo. Escrever não é uma forma de se livrar, é uma forma de viver, viver os sentimentos de outra forma. Eu sinto como se fosse possível viver várias vidas e criar vários mundos em uma. Quando você escreve, é preciso estar dentro daquela personagem. As emoções, você têm que tirá-las de você. Pelo menos eu não consigo criar personagens e emoções que eu não tenha como tirar de mim, que sejam externas. Tudo o que crio, tiro de mim e ao fazer isso é quase como se eu vivesse outra vida. Isso não esgota, acho que a escrita não é uma análise, não é uma cura, pelo contrário, ela possibilita viver várias vidas no espaço de uma única e pensar coisas que normalmente não pensaríamos.

O que você aprendeu com o "Flores Azuis"?

Aprendi a aceitar mais, a compreender a diferença, os extremos e talvez até a loucura. Muitas pessoas me falaram isso e eu também concordo, é a mulher que se dá completamente, que se entrega completamente ao homem de uma forma quase obsessiva. Muita gente me diz assim: "mas como essa mulher pode ser dessa forma como ela pode se entregar a tanto?". Eu teria dito a mesma coisa antes de ter lido o livro, como alguém pode ser assim? Ao escrever o livro eu construí essa personagem, ao tirar aquilo de dentro de mim, que de alguma forma deve existir, compreendi melhor como funciona a cabeça desta mulher.

As cartas servem para unir de alguma forma o que foi separado?

Não. As cartas são uma forma da personagem trabalhar essa história, dessa personagem tão passiva que se deu tanto de uma forma tão completa. É um momento de se reconstruir. A personagem retoma o poder com a palavra, tem até um momento que ela diz assim: "isso aconteceu realmente, as coisas foram realmente dessa forma? Porque numa relação amorosa a gente nunca sabe como foi aquilo realmente. Não importa, porque quem está dando a versão sou eu, e sou eu que decido como foi". Assim, ao escrever as cartas ela vai retomando, vai reconstruindo como pessoa e como sujeito.

Qual é o significado da separação?

A separação é algo que nunca acaba. Tem duas questões da separação que a personagem fala no livro com as quais eu concordo: que a separação nunca é um núcleo, nunca acontece em um momento só. A separação começa a acontecer já muito antes. As pessoas se conhecem e talvez naquele momento as pessoas começam o processo de separação. As pessoas às vezes ficam anos se separando. Então acho que a pessoa que fala "pronto, aqui acabou", "aqui tem uma linha", "aqui tem um limite", acho que não existe. Existe talvez um ato final que aponta uma gota d'água ou algo assim, mas a separação já começou faz muito tempo.

Outra questão é que a separação não acaba no momento em que as pessoas se separam fisicamente, existe uma separação da alma, psicológica, um luto na realidade. Talvez, muitas vezes, as pessoas não vivem o luto, pois vivemos numa sociedade que o luto e o sofrimento são malvistos. Talvez essas cartas sejam também uma forma de luto, necessário até para ter em algum momento deixar de sofrer.

Todas essas separações têm algo relacionado com suas mudanças de países?

Costumo dizer que eu estou a dez anos em trânsito. Morei em várias cidades na Alemanha, na Espanha, na França e agora no Brasil. Você não precisa apenas se separar de um namorado, de um marido, você pode se separar de uma cidade, dos amigos, tudo isso são processos constantes de luto das coisas que você abandonou ou que você deixou. É sempre uma questão muito difícil e por outro lado tem sempre a alegria do novo, uma porta que se abre para o novo, para o inesperado. Mas, como o livro não tem nada relacionado com minha vida pessoal, foi uma necessidade muito intelectual, no sentido que eu tinha terminado o "Toda Terça" e os personagens tinham essa dificuldade de demonstrar o amor e de se entregar, eram muito covardes, no meu ponto de vista. Então era uma oportunidade de ter personagens completamente diferentes, que tivessem coragem.

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Sobre João Casmurro

Esta não é uma página pessoal. Todo o material é compilado por uma equipe de colaboradores, coordenada pela editora Ana Carolina Grignolli, jornalista especializada em comportamento.
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1 comentários :

  1. todo relacionamento entre homem mulher se acaba com a rotina ,situaçao financeira etc.

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