OTÍLIA E TONHO: HISTÓRIA DE AMOR QUE DURA 80 ANOS

Com o tom de voz bem baixinho, quase num sussurro, na melodia que é uma mistura de notas de cantiga de ninar e cântico de igreja, dona Otília Maria de Jesus entoa uma estrofe que ela mesma compôs: “Ainda vou no céu em vida/ perguntar ao Nosso Senhor/ se no dia que eu morrer/ posso levar o meu amor”. A música tem tudo a ver com a história da “cantora: ela e o marido, Antônio Xavier de Carvalho, estão casados há 80 anos, completados no último dia 9. Os dois vivem na casa de um dos nove filhos, em Monte Mor.

Sentados lado a lado, as mãos calejadas dos dois se entrelaçam o tempo todo. Quando percebe alguma fala carinhosa do marido, dona Otília se encosta nos ombros dele. Cheios de demonstrações de carinho, a memória é retomada aos poucos, alguns lapsos surgem, um corrige o outro e o sorriso grande, simultâneo entre os companheiros, vem em seguida.

Na colônia de centenas de empregados de uma fazenda de café na Vila Elisiário, na região de Catanduva (a 300 quilômetros de Campinas), tanto a família de dona Otília, hoje com 99 anos, quanto a de seo Antônio, de 102, foram morar na década de 20, vindas do Sertão da Bahia. Ali, numa das animadas festas, na época em que os bailes começavam às 18h e, no máximo, até as 21h, já tinham acabado, seo Antônio começou a observar a moça. “E não é que eu gostei?”, conta dona Otília. Para que o casamento se realizasse, não demorou sequer dois meses. “E foi uma festança com tanta leitoa assada que eu nunca vi tanta fartura”, relembra seo Antônio.

O casal passou a maior parte da vida na zona rural. Da fazenda da Vila Elisiário, onde nasceram os dois primeiros filhos, dona Otília tem a lembrança também do patrão, Amâncio Pereira, que foi seu padrinho de casamento. “Lá, nós pegamos 5 mil pés de café para cuidar sozinhos. Íamos para o cafezal juntos, logo cedo, quando o sol começava a aparecer no céu”, diz seo Antônio. O costume de acordar ainda de madrugada prevalece até hoje. “E eu lá sou mulher de acordar às 11h? Nessa hora já até almocei”, orgulha-se ela. O casal passou outros 50 anos no Paraná, primeiro como empregados noutra fazenda de café e, depois, como proprietários de um pequeno sítio. Há cerca de cinco anos, mudaram-se para Monte Mor, para ficar mais perto dos filhos e receber os cuidados deles.

Os dois não se casaram na igreja. “Casamos no civil e já estava bom. O importante era que nós tínhamos amor um pelo outro”, afirma seo Antônio, sem querer dar muitos detalhes da história. A certidão original já deteriorou. A segunda via, que ele gosta de ter sempre no bolso da camisa, foi emitida em 1972. Os dois, ao serem questionados sobre o que foi necessário para ficar tanto tempo juntos, respondem que a receita é a compreensão e o respeito. “Brigar todo casal briga neste mundo. Mas eu não me importo quando ele vem com conversa e cara feia”, diz dona Otília, antes de dar uma olhadinha de desprezo para o marido e soltar um sorriso que faz a alegria contagiar a sala. “Eu deixo para lá, porque sei que ele gosta de mim. Nunca fomos dormir de mal um com o outro. Os casais de hoje não ficam muito tempo juntos porque qualquer coisinha já fazem cara feia. Eles não têm paciência e uma besteirinha causa a maior confusão. Quem é que pode viver só com alegria?”, ensina a avó de 25 netos, bisavó de outros 20 e tataravó de uma menina.

A festa pelos 80 anos foi simples, como é a família: só um almoço, para os que moram mais perto. Com tantos descendentes, fica impossível conciliar uma data para reunir todos. Para um dos filhos, Evando Xavier de Carvalho, honestidade e os valores morais são as grandes qualidades dos pais. “Durante a vida toda, eles foram assim: bem-humorados e pais que nunca levantaram a mão para nenhum dos filhos. Foram enérgicos quando necessário e conseguiram passar a todos como é importante ter uma família”, diz ele, aos 59 anos.

Os dois também já viveram muitas tristezas, mas há algumas mais dolorosas. “A perda dos meus filhos foi a dor que eu queria ter evitado nesse tempo todo. Ninguém merece o que eu passei. Mãe nenhuma está preparada para isso.” A idade avançada já levou o casal ao velório de três filhos. Um deles morreu ainda recém-nascido. Outros dois morreram quando netos já tinham tomado conta da casa.

Dona Otília gaba-se de ficar “mais de ano sem tomar um comprimido”. Seo Antônio tem dificuldades para ouvir e só consegue caminhar bem devagar, se apoiando na parede. Ela ainda sai para caminhar pelas ruas, até faz umas comprinhas de vez em quando. Gosta também de receber amigos para um café e não descarta uma cerveja preta. “É só ter em casa que eu bebo”, conta. Com colesterol em níveis mais do que satisfatórios, os dois têm entre os pratos prediletos o arroz e o feijão com toucinho. “Se tiver uma mandioca, então, eu como sem parar”, conta ela. Ele já prefere uma estranha combinação: “Eu como arroz, feijão e um pedaço de rapadura de mistura. Isso me deixa forte como nunca”, explica. Dona Otília detesta sopa. “Tem gente por aí que fica falando que eu preciso tomar caldo disso, caldo daquilo. Arroz, feijão e carne são os melhores remédios que Deus deixou nessa terra”, afirma.

O casal que completa 80 anos de casamento comemora "bodas de nogueira". A denominação diz respeito à longevidade que a árvore produtora das nozes costuma ter, além da capacidade que tem para superar adversidades.
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Sobre João Casmurro

Esta não é uma página pessoal. Todo o material é compilado por uma equipe de colaboradores, coordenada pela editora Ana Carolina Grignolli, jornalista especializada em comportamento.
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