Crônica de Natal : 'Dezembro tem fome de quimeras'

A família da mãe era o epicentro do discurso amoroso. Gravitávamos em torno dos avós Daniel e Amada e dos tios Maíta, Avelina, Celina, António. A mãe Carmen, traduzia-me a origem para jamais me afastar daquela manjedoura. Havia que cultivar aquela memória onde eu estivesse.

O pai, Lino, aplaudia a realidade que a mãe consolidava a cada visita a Vila Isabel. De acordo com o seu desígnio, eu devia crer na humanidade. Afinal, cada irmão daquela grei era o melhor amigo do outro. Razão bastante para nenhum se atrever a quebrar os grilhões familiares. Ou esquecer a união que devida a serem eles filhos da atormentada imigração. Porque embora passados tantos anos da viagem atlântica empreendida pêlos pais no final do século XIX, em direção ao Brasil, aqueles tios sabiam que eram originários de uma ilusão inesquecível.

Cada semana a mãe me levava à casa matriz em busca do Santo Graal. Do prémio que constituía em conviver com a tribo familiar, com as memórias procedentes das paisagens de São Lourenço-em Minas, e de Cotobade - na Galícia. Entre suas paredes, pautados todos pelas horas de um domingo lento, aquele cotidiano instigava o diálogo, as narrativas modestas. Aconchegada assim, eu aprendia a expandir os sentimentos incipientes, a dosaras emoções, a zelar pêlos segredos que traziam todos consigo. Éramos criaturas, porém, que temíamos confidências que tinham o efeito de confundir os sinais externos da realidade, de induzir a interpretações maliciosas, ou mesmo equivocadas. Sob a orientação da avó Amada, tínhamos em mira que, a despeito dos erros e das omissões, havia que salvar quem estivesse carente.

Quem batesse à porta de Vila Isabel, era bem-vindo. Em especial os que entraram na família por meio de alianças matrimoniais. Mas estes, conquanto estimados e respeitados, não integravam o núcleo afetivo que abastecia os avós, os tios e os netos. Aquela espécie de amor que dispensava explicações ou declarações públicas.

Sem a família materna, jamais haveria dezembro. Assim, à margem do que ia assimilando da natureza inóspita das coisas, eu intuía que sem os festejos natalinos, me veria privada do arsenal de lembranças que haveriam de me saciara fome ao longo dos anos.

Temerosos pois, de desafiar os deuses, enfeitávamos a noite natalina com esperanças e nozes. Havia em cada qual o esforço conjugado de cuidar da comida como se estivéssemos a preparar o presépio para o próprio menino Jesus na iminência de nascer. Cada palha do seu berço correspondia a um talher polido, a uma travessa esmerada, ao vinho português ou espanhol que esplendia nos cristais. Sem faltar na mesa o polvo - vindo da Espanha, e o bacalhau, que, segundo a designação de origem, chegado do Porto. As demais iguarias, vindas em linha reta da cozinha, faziam os olhos brilhar, propiciavam que erguêssemos as taças brindando a fartura, a própria vida. Enquanto as crianças, sob o incondicional amparo familiar, festejavam suas quimeras com o guaraná borbulhante. Nesses momentos mágicos, renunciava-se para um balanço de acertos e fracassos, e tudo para simular uma mentira benfazeja. Afinal sobravam razões para comemoraruma data que prometia prodígios.

Tal herança, levei para a Lagoa, após enterrar meus mortos. Nesse recanto, que ocupo há anos, vivo com meus pertences, reverencio os que se foram, sou dona das minhas horas e dos meus segredos. Só que agora celebro o Natal com a tribo que elegi ao longo da existência. Nessa noite, os enfeites e os retratos abandonam o porão das lembranças e distribuem-se pela sala, de onde vejo o espelho da Lagoa. Sobre a mesa, como de costume, repousam as iguarias tradicionais, que nunca as esqueço. Aliás, sou meticulosa fazendo a vida emergir. Dessa forma, pelo restante do apartamento, há sinais de um passado feliz e dos desacertos que fui acumulando. Mas serão acaso pecados, ou expressam simplesmente a expressão da ânsia de ser livre?

Olho em torno e me emociono. Em cada recanto transitam os restos do intenso horizonte familiar. Há muito cabe-me, e enquanto viva, enaltecer os mortos, incluí-los no meu acervo. Sobretudo o pai, que faleceu no início dos meus vinte anos, e a mãe, que se despediu há dez anos. Mas, ao saber que serei a próxima a despedir-me, indago quem há de cuidar das min hás exéquias?

Mas afinal, qual pode ser o significado desse dezembro no meu calendário sigiloso? Para mim, que sou anfitriã, o que importa de fato? Acaso aguardo, sob o jugo de uma euforia coletiva, que esse mês imprima novas pegadas à memória, recupere cenas que ficaram para trás, regue caprichos oriundos da fornalha dos enigmas?

Sei sim, que esse dezembro incita a perdoarquem somos, a esquecera rota que nos trouxe até onde nos encontramos agora. Mas o que mais nos regala, além da sensação de podermos finalmente recomeçar ávida?

Mas, se outrora amei dezembro, deixei de amá-lo após a morte dos seres amados e do catálogo das desilusões. A despeito porém das perdas, este mês alardeia uma intimidade com o que convencionamos chamar de sagrado e profano, e me faz bem. Como se por meio dessa falsa divisão de valores, o Natal, por si só, anunciasse a chegada de aturdidas saturnais e de presépios ungidos pela credulidade coletiva. E tudo para que o imaginário popular, ao som de trombetas e alvíssaras, propague o ocaso dos tempos cruéis e anuncie o advento de um ciclo favorável.

Sob os auspícios, no entanto, dos dias ilusórios, meu dezembro atrela-se à roda da fortuna e da sorte. Igualmente aos desatinos da paixão e do fastio, aos furtivos amantes que rodopiam pêlos salões à espera de outros casais que, corroídos pela fadiga do cotidiano, bailam aos acordes da valsa antiga.

Observo os amigos que circulam pela casa enquanto riem, sorvem o vinho rubro, mastigam o alimento, fazem declarações afetivas. Sob a proteção de um presépio que armamos em um recanto da sala, é provável que cada qual, empenhado em refazer o caminho da fé, ingresse por breves horas no provisório círculo da fantasia, ao qual jamaisterei acesso.

Ah, sem dúvida, dezembro tem fome de quimeras. Incluindo as minhas.

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Sobre João Casmurro

Esta não é uma página pessoal. Todo o material é compilado por uma equipe de colaboradores, coordenada pela editora Ana Carolina Grignolli, jornalista especializada em comportamento.
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1 comentários :

  1. Estou passando para agradecer a você que me acompanhou neste meu percurso.
    Não peço nada,nao desejo nada nem coisa parecida. Tantos desejos tantos pedidos que já não vale a pena estar a fazer mais...
    Mas...Afinal de contas...Também sou gente e mais um pedido não faz mal a ninguém...
    Um simples pedido....
    Que as pessoas que eu tanto gosto não me deixem nunca...É tudo...
    Feliz Natal para todos os blogueiros...Feliz Natal para todos os Meus Amigos...

    Deus os abençoe a todos....

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