GAROTA IDEAL : A FÁBULA DO AMOR PERFEITO




A dica de filme de hoje tomo emprestada de uma honrosa frequentadora de nosso blog, a cronista Martha Medeiros, que escreve regularmente para o jornal Zero Hora, de Porto Alegre (RS). Com a delicadeza e inteligencia habituais, ela faz uma resenha muito pessoal do filme que passaria desapercebido sob o errôneo rótulo de "comédia". Algo semelhante com o que ocorre com o filme "Como se Fosse a Primeira Vez", onde por vezes o drama ultrapassa a comédia, mas sem prejuízo da obra, mas sim como homenagem ao amor, ao romantismo inocente dos melhores filmes americanos. Veja a seguir o artigo na íntegra.

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Acabo de assistir uma pequena joia no DVD, que recomendo a todos. O filme chama-se A Garota Ideal, e não lembro se, quando esteve em cartaz, foi aclamado ou passou batido. Eu só o assisti agora por recomendação fervorosa de uma amiga. Sempre achei que os melhores presentes que recebemos são essas dicas avalizadíssimas. Claro que nem sempre dá certo - essa mesma amiga já me recomendou um filme que não consegui passar da metade - mas é raríssimo nós duas não sintonizarmos no quesito cinema.

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Bom, A Garota Ideal é uma produção norteamericana vendida como comédia, mas ela não produz gargalhadas, apenas sorrisos ternos, porque o filme é isso: terno e profundamente tocante. É a história de Lars, um homem tímido em excesso. Ele mora nos fundos da casa do irmão e da cunhada, que tentam atraí-lo pra vida, mas ele prefere viver recluso, sem amigos, sem namorada, saindo apenas para trabalhar e voltar para seu bunker sossegado. No entanto, a insistência é tanta para que ele socialize, que ele encontra uma solução para o deixarem em paz: compra pela internet uma boneca sexual em tamanho natural, até meio parecida com a Angelina Jolie. O nome dela é Bianca. O que poderia passar por piada se transforma num constrangimento, pois ele trata a boneca como se ela fosse uma mulher real. Conversa com ela, senta com ela à mesa na hora das refeições, deixando seu irmão e a cunhada estarrecidos com esse delírio. Ao procurarem uma psicóloga para saber como lidarem com a situação, a profissional recomenda que o casal entre no jogo de Lars, tratando a boneca como gente. Enquanto isso, a médica também entra no jogo, fingindo que está tratando a boneca de uma doença, mas na verdade ela aproveita para iniciar uma terapia com ele, sem que ele perceba.

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Aos poucos vamos descobrindo a fonte de toda a reclusão de Lars, a razão do seu medo de ser tocado pelos outros, em todos os sentidos: físico e psicológico. Enquanto isso, vai se estabelecendo uma corrente de solidariedade pelo pequeno vilarejo onde ele vive: todos também começam a tratar a boneca como real. O padre na igreja, os colegas de escritório, os vizinhos, a cabeleireira, a tal ponto de Bianca parecer mesmo que é alguém com pensamentos e vida própria. E à medida que ela vai ganhando essa vida própria (tem amigos e até uma agenda de compromissos), Lars começa a desenvolver sua percepção sobre as diferenças entre realidade e fantasia. Mais do que isso não conto porque aí vocês vão me matar.

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O filme é simples e exato. Por mais estapafúrdio que possa parecer o roteiro, ele é genial. Tem uma frase que pra mim resume tudo: é quando Bianca, ao sair da igreja ao lado de Lars (ela se locomove numa cadeira de rodas, naturalmente - seria exigir demais que ela caminhasse...), uma senhora coloca um ramalhete de flores artificiais no seu colo. Lars se afasta, empurrando a cadeira, e sussurra para a "namorada": "Não são de verdade, por isso vão durar para sempre". Uau. O que mais desejamos na vida é que nossos amores durem para sempre, porém eles são de verdade, e a verdade pressupõe desentendimentos, frustrações, mudanças de humor, e tudo isso nos fragiliza, nos deixa inseguros. O amor não é uma flor de plástico. Se fosse, duraria pra sempre, como gostaríamos, mas ao mesmo tempo não exalaria perfume, não teria frescor, não demandaria cuidados: não haveria vida.


Ficha Técnica : A Garota Ideal (Lars and the Real Girl) - EUA, 2007 - 106 min - Drama - Direção: Craig Gillespie - Roteiro: Nancy Oliver - Elenco: Ryan Gosling, Emily Mortimer, Paul Schneider, Patricia Clarkson, R.D. Reid, Kelli Garner
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Sobre João Casmurro

Esta não é uma página pessoal. Todo o material é compilado por uma equipe de colaboradores, coordenada pela editora Ana Carolina Grignolli, jornalista especializada em comportamento.
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