SAIBA O QUE É UM 'AMOR TAMAGOTCHI'

Lembro-me bem da minha infância/pré-adolescência quando bichinho virou febre. Ficava me perguntando “Porque raio esse japonês carrega esse troço? Pra alimentar e dar banho? Que coisa mais sem graça!”.

Não passou muito tempo e ganhei o meu, de um tio. Cuidei e deixei morrer. Realmente sem graça.

Mas, quem diria, mal eu sabia que ainda cairia na armadilha de um Tamagotchi. De me relacionar com alguém da mesma forma que um Tamagotchi. Alimentando por botões (ou teclas) na internet. Um Tamagotchi real.

Foi há pouco mais de um ano e terminou a alguns meses. Uma experiência edificante, mas que não desejo pra ninguém e que vejo a todos segundos se repetir. Com várias pessoas próximas a mim.

Afinal, porque o relacionamento Tamagotchi é tão sedutor? Primeiro: a distância. Não existe nada mais perfeito do que a distância. De longe nada incomoda e parece muito mais desejável do que o que está próximo. Não há pêlos, não existe família, não há sexo, não há chulé e todas essas outras bobagens.

A distância é tão sedutora pois, sim, no fundo… você quer manter a distância. Você não quer encarar a realidade de que está sozinho, de que efetivamente precisa de alguém de carne e osso e aceita, assim, alguém que consegue preencher o vazio da sua alma. Com tanta perfeição, já que, na internet, você pode encontrar a pessoa dos seus sonhos com poucos cliques.

Você não precisa amar, de verdade. Já que você está com uma pessoa totalmente perfeita e adequada ao seu perfil. O reflexo mais perfeito do próprio narcisismo. Seria quase como amar a si mesmo.

Então, vagarosamente, você começa a se distanciar das pessoas reais… aquelas totalmente imperfeitas. Aquelas que você precisa efetivamente amar para superar os defeitos, que podem ser grandes.

Começa a caminhar, vagarosamente, num deserto de emoções… em que, tudo o que vê, é a ilusão de um amor, como um enorme lago que vai saciar a sua solidão e, de quebra, irá resolver todos os problemas que não consegue lidar.

Você caminha, corre… e, aos poucos, vai ficando mais sedento. Começa a delirar. E corre, corre, corre. Nunca encontra o lago. Porque ele, efetivamente, não está ali. Mesmo que ele estivesse, tudo o que você encontraria ao vê-lo seria o seu reflexo. E, assim, só depois de percorrer muitas milhas com o sorriso no rosto e com o sonho no coração, mas faminto e exausto, você cai no deserto. E cai na realidade, de que tanto fugiu.

É essa a ilusão que a internet alimenta. E não precisa de Twitter pra isso. Com o bom e velho ICQ já se podia construir a ilusão de que efetivamente se está próximo de alguém, mesmo estando longe. Vocês compartilham as idéias, os ideais, as coisinhas corriqueiras, os sonhos e, claro, a vontade de acordar e dormir pensando em alguém. A mais doce ilusão dos tempos modernos. A ilusão do encontro. A ilusão do lago. Que vai mostrar toda a fragilidade não do sentimento, que pode ser intenso e vigoroso, mas sim a fragilidade humana. A fragilidade dos desejos mais básicos, que nem mesmo a mais inteligente (ou burra?) das mentes consegue enganar.

Você pode alimentar o seu amor Tamagotchi como for. Satisfazê-lo com as mais belas tecladas… Contudo, a única certeza é que, como no brinquedo, ele irá morrer. E você… Vai ter deixado de brincar com as outras crianças, de ter relacionamentos verdadeiros, por causa do seu pet de mentira.

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Sobre João Casmurro

Esta não é uma página pessoal. Todo o material é compilado por uma equipe de colaboradores, coordenada pela editora Ana Carolina Grignolli, jornalista especializada em comportamento.
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