NOIVA RASTEJA POR TÚNEL PARA VIVER AMOR PROIBIDO

Ele morava na Faixa de Gaza, ela na Cisjordânia. Parecia que o bloqueio israelense impediria o casamento dos dois. Então May arriscou sua vida para rastejar por um túnel de contrabando e chegar a Gaza para se unir a Mohammed. Agora eles enfrentam um futuro incerto juntos. Quando Mohammed Warda abraçou sua noiva pela primeira vez, parecia que ela "tinha acabado de sair de um túmulo cheio de terra". Ele passou uma hora sentado nervosamente ao lado de um grande buraco no chão na Faixa de Gaza, enquanto May engatinhava de costas pelo túnel, mantendo os olhos fechados por causa da areia que caía do teto. Seu noivo teve que pagar US$ 1.500 (R$ 2.600) para que ela passasse clandestinamente por um túnel de contrabando do lado egípcio da fronteira até a Faixa de Gaza. E May, de 23 anos, sabia todo o tempo que a arriscada empreitada poderia lhe custar a vida.

Mohammed foi honesto com ela ao telefone, alertando sobre os perigos que enfrentaria. Antes de mais nada, havia os egípcios que estavam tentando acabar com os túneis, às vezes jogando granadas de gás nos poços de ventilação. Dezenas de pessoas que trabalhavam nos túneis haviam morrido nos últimos meses por causa desses métodos. Fora isso, havia os ataques aéreos israelenses: depois de Israel ter falhado em impedir o contrabando durante a guerra de Gaza que lançou no começo do ano, sua força aérea começou a atacar esporadicamente a fronteira com o Egito. E também havia o perigo de o túnel simplesmente desabar. Depois de quase uma hora sob o solo, ela cambaleou para os braços de Mohammed, que a esperavam abertos.

A história de May e Mohammed começou uma noite há três meses. Todo o clã havia se reunido no humilde apartamento da família Warda no campo de refugiados de Nuseirat, na Faixa de Gaza. Dez membros da família estavam sentados em frente a seu bem mais precioso: um computador com webcam que os mantêm em contato com seus parentes na Cisjordânia.

Mohammed Warda, ruborizado, comandava o mouse, enquanto sua prima May aparecia na tela, cercada por seus parentes. "Por que você está tão vermelho?" foi a primeira pergunta que May fez para o homem com quem sua família havia concordado que ela se casasse. Mohammed murmurou algo antes que os pais de ambos assumissem a conversa. "Vocês concordam?", perguntaram. Mohammed e May sorriram um para o outro via webcam e balançaram a cabeça em afirmação. As famílias comemoraram.

Um noivado arranjado por um dos pais e um casal formado por primos em segundo grau: até então, a história de Mohammed e May parecia uma história comum do mundo árabe. Entretanto, ela difere da de muitos outros casais que entram em casamentos arranjados por alguns motivos essenciais. Primeiro, os dois se apaixonaram nas semanas que se seguiram ao noivado online. May e Mohammed se conheceram depois por telefone, webcam e e-mail e um romance virtual floresceu. Em segundo lugar, o que impedia o seu amor e casamento eram questões políticas.

A Faixa de Gaza foi cercada por um bloqueio israelense desde que o grupo radical islâmico Hamas saiu vitorioso em uma violenta luta de poder no território em 2007. Um milhão e meio de pessoas estão presas em uma das áreas mais densamente povoadas do mundo, de acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas). O fato de que os palestinos que vivem lá são proibidos de sair da Faixa de Gaza ou de ir para a Cisjordânia foi descrito pela ONU como uma "punição coletiva".

Isso significava que, se os dois quisessem se casar, seria May que teria de deixar a Cisjordânia. Ela e sua mãe tomaram um táxi coletivo para a Jordânia e depois viajaram para o Egito. Ela então teve que se despedir de sua mãe no lado egípcio da fronteira com Gaza. Ela não sabia se veria sua família novamente. E sabia que deveria engatinhar pelos infames túneis de contrabando até a Faixa de Gaza, se quisesse ter um casamento feliz.

Levou quatro dias e milhares de quilômetros para May viajar de Ramallah para Gaza. Então ele decidiu que May teria que ir até ele. Eles não têm nenhuma mobília além da mesa onde fica o computador e os colchões de espuma encostados na parede. Durante o dia os colchões servem como sofás e à noite como cama para a família.

Imagem :
Flickr. Autor : Nattu
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Sobre João Casmurro

Esta não é uma página pessoal. Todo o material é compilado por uma equipe de colaboradores, coordenada pela editora Ana Carolina Grignolli, jornalista especializada em comportamento.
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