Agora era tarde para voltar. A mulher estava me esperando e eu já havia adiantado um pouco do assunto pelo telefone…

Nem sei porque a procurei. Curiosidade? Bom, acho melhor explicar como aconteceu…

Há dois meses atrás fui ao sebo, que ficava quase na esquina da Farrapos com a São Pedro, em Porto Alegre, e comprei um livro. Não era um livro qualquer, era “O Livro”. Era, para mim, um livro tão importante, que provocou tanto impacto em minha maneira de ver o mundo e o Universo que eu queria ler apenas quando julgasse estar pronto…

O filme era o meu preferido, o diretor do filme também, assim como o escritor do livro. Mas o livro propriamente eu jamais havia lido. Sabe aquela lista que a gente sempre faz dos “livros para ler este ano”? Eu jamais colocava este livro na lista. Sei lá, pode parecer idiota, mas é como uma sobremesa onde primeiro comemos a “pior” parte, deixando a melhor para o final…

2001, Uma Odisséia no Espaço, de Arthur Charles Clarke (dizem que ele não gosta do Charles. Desculpe…). Uma barbada. 10 reais. Se você que estiver lendo essas palavras, mora no futuro, saiba que esses 10 reais equivalem a cinco garrafas de coca-cola, ou a um ingresso de um bom cinema.

Bom, chega de divagações. Comprei o livro. Ponto. Isso era uma quarta-feira e no sábado, aproveitando a folga, refestelei-me no sofá pronto para ler o livro.

Geralmente quando escolho um livro em um sebo, não olho as páginas finais e nem as iniciais. Pra não estragar a surpresa, acho. Abri a primeira página, a da contracapa, e lá estava, uma dedicatória escrita em letras bonitas, angulosas. Se fosse possível imaginar alguém através da letra, eu diria que aquela moça (era na época, descobri mais tarde…) era alta, elegante, gostava de vestir-se bem e ouvia bossa nova. Tinha preferência por tudo o que fosse sóbrio e altivo. Em suma, uma pessoa “clássica”, como a música.

Essas coisas me passaram pela mente, mas não tenho nenhum processo lógico para explicar como cheguei a essas conclusões. Não me peçam para destrinchar os intrincados mecanismos da mente humana, tão diferentes de pessoa para pessoa.

Eram oito linhas. Oito simples linhas. Inclinadas diagonalmente. Não resisti à curiosidade e peguei um esquadro para medir a inclinação: quarenta e cinco graus. Exatos.

Você deve estar curioso para saber o que estava escrito. Aqui vai:


“Que você

encontre a

felicidade

e que ao abrir este

livro lembre-se desta

que tanto o ama


Lílian Marlene Fuchs”


Mais abaixo, no rodapé da página, bem à esquerda, a data:


“22 - 2 - 1969″


E, ao lado, a assinatura, simples, enigmática, encantadora:


“Lili”


Por favor, aquelas oito linhas acima, imagine-as inclinadas, no alto da página, à esquerda.

Comecei a ler o livro mas aquilo sempre me voltava à mente: o que teria acontecido àquele grande amor da Lílian? Afinal, o livro fora vendido ou emprestado para alguém que, ao invés de devolvê-lo, vendeu-o para um sebo. É triste, é engraçado, mas não impossível de acontecer…

Teria o “amor da Lílian”, morrido? Teria Lílian também morrido?

E me veio a vontade de conhecer a Lílian. Lembra daquele filme com o Christopper Reeve, o super-homem, “Em Algum Lugar do Passado”? Creio que era ele e a atriz Jane Seymour, não tenho certeza… Ele apaixonou-se por uma foto dela que havia sido tirada há muitos anos atrás…

Não me apaixonei pela Lílian, esclareço. Mas a curiosidade era muito forte. Eu sentia que, não importando os caminhos que aquele livro percorrera, ele precisava voltar às mãos dela. Ou aos seus filhos e netos se já fosse falecida…

Bom, agora acho que as coisas estão mais claras, certo? Foi assim. Fiquei com medo de ser mal recebido, talvez aquela moça que escrevera palavras tão belas, tão simples, houvesse enlouquecido. Ou se tornado alcoólatra. Sei lá. Mas insisti. Investiguei. E descobri que Lílian estava viva. E, sorte minha, morava em Porto Alegre mesmo…

Liguei, combinando um encontro, e ela me ouviu atentamente. Sua voz mostrava que já havia passado um pouco da meia-idade.

O livro foi publicado em 1968, e a dedicatória fora feita em 1969. Bom, digamos que ela tivesse vinte anos na ocasião. Nasceu em 1949. Em 2003 ela deveria estar com 54 anos. Mas se ela tivesse 30 em 69, estaria agora com 64. Não perguntei a idade dela. Não se pergunta isso para damas e nem para não-damas.

Ela me convidou para tomar um chá e eu aceitei. Gostaria muito de conhecê-la. E, se ela permitisse, gostaria de contar a história para quem quisesse ouvi-la.

E agora eu estava aqui, na frente da casa dela. Olhei para o relógio, eram cinco horas da tarde de sábado. Eu disse que estaria lá as cinco e meia, mas antes queria ver como era o lugar. Antes de conhecer a Lílian pessoalmente eu queria depreender um pouco mais dela. Ela morava em uma casa verde, de dois andares, na rua Marquês de Pombal, no bairro Moinhos de Vento. Para quem não conhece a rua, basta saber que é uma obra de arte. Árvores centenárias nas calçadas e que se cruzam em arco sobre a rua. Parecia que elas gostavam tanto de morar ali que se abraçavam para proporcionar beleza e sombra para os moradores da área.
Um jardim bem cuidado dava um toque de harmonia à casa. Janelas grandes, uma porta alta. E, curiosidade, não tinha grades. Porto Alegre ainda não era uma cidade ultraviolenta, mas todos os que tinham condições tratavam de colocar logo armaduras finas feitas de metal plantadas ao redor de suas casas e terrenos para impedir a entrada de visitas indesejadas.

Caminhei até a porta e apertei a campainha. Ouvi passos lá dentro e a maçaneta se mexeu. Então, finalmente, pude ver quem era a moça que havia escrito aquelas palavras…

Quinze minutos mais tarde e estávamos sentados no sofá, tomando chá. Não pude deixar de pensar que se eu tivesse nascido trinta anos mais cedo, me apaixonaria por ela. Ruiva, cabelos longos, pele bem clara, descendente de alemães (o nome Fuchs não enganara…)…

- Fiquei surpresa quando recebi sua ligação.

- E eu fiquei com medo. Sei lá. Às vezes um grande amor pode transformar-se em ódio. Não queria correr o risco de despertar emoções dolorosas.

- Mas não foi o que aconteceu, meu jovem. Meu marido sempre gostou de ficção científica, desde que era criança. Assim que saiu o filme, lançaram o livro. E quando foi traduzido e lançado aqui no Brasil, comprei e dei para ele. Posso ver?

- Claro.

Abri a sacola e tirei o livro. Estendi para Lílian e ela o segurou como se fosse feito de porcelana chinesa do século II. Olhei bem para seus dedos longos e logo imaginei um piano sendo tocado por ela. Ela estava um pouco castigada pela idade, com uns 58, 60 anos. Mas continuava bela.

- Quando você me falou imediatamente me lembrei do dia em que o comprei. Cheguei em casa, pedi uma caneta emprestada para minha irmã, pois havia deixado minhas coisas na casa dele, e escrevi essas linhas…

- Eu comprei o livro em um sebo…

E contei para ela desde o início como havia encontrado o livro e investigado sobre ela. Ela me contou sobre o falecido marido e a vida que passaram juntos. Fiquei triste ao saber que ele morrera em um acidente de carro em 1974. Três anos após casarem-se. E ela jamais havia se casado novamente…

- Só não entendi uma coisa.

- Sim?

Aqueles olhos verdes tinham uma energia muito grande. Seu corpo havia envelhecido. Seus olhos não, apenas a luminosidade deles havia aumentado com o passar dos anos. Que bobagem falar isso, pensei no mesmo instante, pois não a conhecera quando jovem. Mas era a impressão que eu tive…

- Foi a senhora que vendeu o livro?

- Sim.

Ficamos um tempo em silêncio. Até que ela explicou…

- Depois da morte do meu marido, eu peguei todos os livros dele e vendi. Doei para bibliotecas. Dei para amigos. Incrível foi esse livro ter sobrevivido todos esses anos.

Conversamos durante horas. E deixei o livro com ela. Era mais do que justo. E ela me fez prometer que voltaria para visitá-la…

Permaneci muito ocupado durante as próximas três semanas. Tive que viajar a serviço para prestar consultoria a alguns concessionários sobre novos dispositivos de segurança. Voltei para o meu apartamento e abri as janelas, para tirar um pouco o cheiro de ar viciado. Liguei a secretária para ouvir os recados deixados durante minha ausência.

Tinham treze recados, que eu fui obrigado a ouvir… Quando chegou a vez do recado doze, ouvia-se um som de música clássica. Somente isso. No final dessa ligação, que não durara mais do que 2 minutos, ouvi um sussurro. Logo veio a ligação número treze, mais uma sem importância. Apertei o botão para ouvir novamente aquela estranha ligação. Aumentei o volume. A música não me era desconhecida, mas eu não lembrava qual era. Mozart? Tchaikovsky? Bach? Strauss?

Mas o estranho era o sussurro no final. Agachei-me e fiquei com o ouvido colado à saída de som da secretária. E então eu identifiquei o som:

“Desculpe”

Levei um susto. Quem seria? Quem estava pedindo desculpas para mim? Já tinha ouvido falar naquelas tentativas de comunicação com os mortos utilizando aparelhos eletrônicos, mas isso já era absurdo. Será que eles é que estavam tentando comunicar-se conosco agora? Para pedir perdão por erros cometidos no passado? Para tentar nos avisar de alguma coisa?

Deixei os pensamentos mais bizarros de lado e tentei identificar a voz. Fui a cozinha, abri um pacote de suco de laranja, servi um copo e me encostei na janela. Quando avistei o vizinho em frente cuidando do jardim eu me lembrei de quem era aquela voz. Era a voz da dona Lílian.

Corri ao telefone e liguei para o número dela. Sem resultado. Peguei o casaco, fechei a janela e peguei a chave do carro que pendia do chaveiro atrás da porta. Em dez minutos estava lá, mas a casa estava fechada. Bati algumas vezes à mão, outras com a o cabo do meu chaveiro, mas nem sinal de vida.
- Procurando alguém, senhor?

Virei-me. Era um senhor de meia-idade. Estranho era ele estar me chamando de senhor. Deveria ser o contrário…

- A senhora Lílian.

Ele baixou a cabeça, com ar grave.

- O senhor não soube?

- O quê? ? perguntei.

- Ela morreu.

Fiquei aturdido durante um minuto. Não sabia o que dizer.

- Que coisa, eu a conheci há três semanas. Ela estava tão bem, ao menos aparentava que tinha boa saúde…

- E ela tinha mesmo. Sempre fazia exercícios e tinha uma alimentação saudável.

- Mas então como…

- Ela se matou.

- Suicídio?

- Sim.

- Mas… qual o motivo?

- Ninguém soube. Foi uma perda terrível. Todos aqui na vizinhança gostávamos muito dela. Meu nome é Harris, se precisar de alguma coisa eu moro na casa azul ao lado. Foi um prazer.

- Obrigado, senhor.

Ela se matou? Suicídio? Que loucura. Peguei meu aparelho celular e liguei para um amigo na delegacia. Dei o nome de Lílian e ele me perguntou quando ocorreu a morte. Pedi para ele aguardar um instante…

- Senhor ? gritei - só mais uma coisa…

Ele já estava na porta de sua casa.

- Sim?

- Quando foi? A, ah, morte?

- Hoje completa sete dias.

Claro, eu deveria ter verificado a data em que foi gravada a ligação em minha secretária. Nem me lembrei.

- Obrigado.

Ele entrou em sua casa.

- Charles, desculpe, foi há uma semana.

Ele me deu os dados. Ela, Lílian, ligou para o serviço da polícia, avisando sobre um roubo. E cinco minutos mais tarde uma viatura estava lá. Mas ela já estava morta. Pílulas. No início acreditaram que fosse o roubo, mas então descobriram o bilhete. Ela havia ligado para a polícia para que encontrassem seu corpo o mais cedo possível, concluíram. Dignidade até mesmo na morte. Pelo jeito ela não queria ser enterrada com o corpo em adiantado estado de decomposição.

- Bilhete, Charles? Posso ler?

- Têm fax em casa?

- Tenho. Pode mandar. Muito obrigado.

Sempre deixo o fax ligado em casa, faz parte do meu trabalho. Cheguei lá e li a cópia do bilhete. Provavelmente a última coisa escrita por Lílian em vida. Estremeci ao ler as palavras:

“A quem possa interessar…

Após a morte do meu marido, jamais me casei novamente. Aquele era um grande amor, daqueles que só acontecem uma vez na vida. E tive sorte de encontrá-lo, minha alma gêmea. Quando ele morreu, pensei em ir para junto dele. Mas a música, os livros, meus quadros e as belezas das flores preencheram o espaço vazio em minha alma.

Quanto a você, caro amigo, obrigado pelo livro.

Mas agora que descobri quem foi meu marido, o que ele fez, eu não tenho mais motivos para viver…

Por favor, deixem os meus livros e os quadros para…”

Seguiam-se os últimos pedidos da vida dela.

Amassei o papel do fax e fiquei sentado, sem entender.

Liguei novamente para meu amigo.

- Alô, Charles? Desculpe, sou eu de novo. Ela deixou mais alguma coisa, mas algo fora do comum? Por acaso sabe se as coisas dela já foram doadas? Não? E eu poderia dar uma olhada? Sem problemas? Ótimo. Passo para pegar a chave.

Passei na delegacia, assinei o pedido e retirei a chave. Fui até a casa dela, entrei e me sentei na poltrona onde havia me sentado na primeira e última vez que havia conversado com ela. Olhei em volta com mais atenção e senti como a vida dela deve ter sido bem solitária…

E foi nesse momento que eu vi o livro. Estava sobre uma pilha de outros livros. Caminhei até lá e peguei-o em minha mão. Era um livro bem antigo, como eu já havia dito, e alguém havia colocado uma capa de papel marrom sobre a capa original, para preservá-lo. E notei que sua capa estava solta, alguém havia descolado o durex que o prendia a capa. E vi a borda de um papel saindo debaixo dela.

Tirei com cuidado a capa de papel, cuidando para que o durex envelhecido não rasgasse a capa original. E foi ali que eu descobri que alguém havia colocado duas folhas de papel entre as capas. Alguém havia usado aquilo como esconderijo.

Tirei a primeira. O papel era bem recente.

“Caro amigo, por favor, não se culpe. Espero que descubra essa carta, não gostaria que ficasse sem saber os motivos que me levaram a isso. Vivi uma vida em completa reclusão, após a morte do meu marido. Não tive outros homens. Não experimentei novamente o sabor do sexo. E jamais me arrependi disso. Como sabe, meu marido foi, é, e será sempre meu grande amor. E foi esse amor que me manteve viva. Eu sabia que após a minha morte, nosso amor continuaria. Nossa separação seria apenas temporária…

Meu caro amigo, muito obrigado por tudo. O livro que você descobriu foi uma surpresa incrível. É difícil imaginar que coisas assim possam acontecer. No meu caso, infelizmente, aconteceu.

Mais uma vez, não se culpe. Um grande abraço e até qualquer dia.

Se Deus quiser…

Lílian Marlene Fucks”

Então, essa era a carta de uma suicida? E destinada para mim? Foi aí que eu peguei a segunda folha de papel. Essa já era bem antiga, estava amarelada. Comecei a ler e entendi o que levou Lílian a cometer aquele ato terrível. Era uma carta escrita por uma mulher, destinada ao marido de Lílian. Era uma carta de amor…

Realmente, passar o resto da vida fiel ao falecido marido e tantos anos mais tarde descobrir a infidelidade dele com outra mulher…

Fica apenas uma pergunta? Se eu não tivesse levado o livro para Lílian, ela teria descoberto a traição do marido? Se não fosse minha curiosidade, ou o hábito dela em fazer dedicatórias nos livros, ela descobriria de outra maneira?

Tantas perguntas…
A partir do blog Stapafurdius. Leia no original.
Imagem: Flickr. Autor: 1Happysnapper
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Sobre João Casmurro

Esta não é uma página pessoal. Todo o material é compilado por uma equipe de colaboradores, coordenada pela editora Ana Carolina Grignolli, jornalista especializada em comportamento.
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2 comentários :

  1. ADOREI!!! GOSTARIA DE SABER SE FOI FATO REAL..OBRIGADA

    fernanda_faccio_lora@hotmail.com

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  2. essa historia despertou-me curiosidade será que foi estoria real? porfavor responder na caixa de Emeil: mylla.neves813@gmail.com.

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