Um amor conjugal que persiste no tempo não é uma miragem, defende a escritora Cristina Freire. Pretendendo buscar a fórmula de construir uma relação, a autora diz acreditar profundamente no que chama de "amor para sempre". "Mas também acredito que poucas vezes será o primeiro, pois construímo-nos como pessoas inteiras, preparadas para uma relação, ao longo de uma vida feita de experiências atentas e melhoradas, pessoais e relacionais", adverte.
Veja a entrevista:

É diferente de uma relação para sempre – que pode ser motivada apenas por comodismo ou medo?
Claro. Essas, com sorte, serão “relações familiares”, de “irmãos” ou de amigos. Nas relações conjugais com amor entre o homem e a mulher ou entre dois homens ou duas mulheres, as expectativas e as regras são, necessariamente, outras.

Fala da necessidade de um infantário para maiores de 30 anos? Porquê e para quê ?
Pelo que me apercebi nas andanças pelo mundo dos afectos, muitas vezes, por volta dos 30 anos já “estragámos” uns 10 anos da nossa vida a viver relações que magoaram e não correram bem, a fazer escolhas menos felizes por uma variedade enorme de razões. Até já estamos preparados para fazer diferente e melhor, mas não sabemos como. Então, como nem todos podem ou têm acesso às consultas, apetecia-me democratizar a “ajuda” e construirmos um espaço onde pudéssemos crescer e consolidar a experiência com o auxílio de alguém especializado, uma espécie de educadores afectivos, numa espécie de infantário para adultos.

Unissexo, ou há um sexo que precisa mais do que outro de reeducação?
Unissexo claro. Todos precisamos de ajuda afectiva. É outro tipo de educação, talvez uma educação dos sentidos, se quisermos, mas fundamentalmente dos afectos. O nosso problema é falta de informação acerca de nós mesmos e dos nossos processos internos de funcionamento.

A falta de comunicação é a principal armadilha a um amor para sempre?
A todos os tipos de amor: amigo, fraterno, filial e de amor adulto. A falta de comunicação e a comunicação deficiente, pois não chega abrir a boca e debitar palavras, é preciso adequar o que se diz a quem se diz, expressar de forma clara o que se quer dizer e ter a certeza de que o outro ouviu exactamente o que queríamos dizer e não outra coisa qualquer. Se todos fizéssemos isto, quase que nem havia guerras, mas a verdade é que parece simples, mas não é, porque a comunicação conjugal é iminentemente afectiva e
por isso muito falível.

Qual é a forma mais "mortal" de falta de comunicação, aquela que traz consigo o pior prognóstico?
Julgo que o silêncio é a maior agressão de todas, a mais difícil de suportar.

Existe a ideia de que o verdadeiro amor acontece, mas basicamente uma relação constrói-se, não é?
Sempre, mesmo que disso não tenhamos consciência pois nem sempre é um processo consciente. Muitas vezes corre tão bem que estamos apenas a viver. Não acredito em relações muito difíceis. Fazer um grande esforço para manter uma relação é um mau prognóstico. Quando se gosta, trabalhar para a relação é um prazer e os sacrifícios que se fazem custam, mas compensam.

Fica com a impressão de que as pessoas desistem com demasiada facilidade?
Sim. E é pena, porque as relações precisam de tempo e as pessoas individualmente também. Numa relação frutífera, a relação cresce juntamente com os seus membros e ambos precisam de espaço e de tempo para acontecer.

Diz que 60 a 70% das pessoas que nos rodeiam nos podiam fazer felizes – porque é que há então tanta gente sozinha? Ao contrário do que julgam, são elas que fazem essa escolha?
É isso mesmo. A não ser que nos forcem, somos sempre nós quem escolhe. Na primeira vez e em todas as outras, quando nos apercebemos que não vai dar certo e ficamos anos nas relações ou negamo-nos a fazer mudanças importantes, tantas vezes por birras de miúdos. Estragamos as nossas hipóteses de ser mais felizes. Sessenta a 70% das pessoas podiam fazer-nos felizes porque essa conquista temos de a encontrar primeiro em nós mesmos e complementar com o outro. Contudo, o que fazemos quase sempre é esperar que o outro preencha todos os nossos espaços vazios em vez de completar o que já temos.

O ideal do amor romântico inflacionou as expectativas?
Não sei se o ideal de amor romântico ou um conceito distorcido do que é o amor romântico que não é de todo um amor tonto e lamechas, mas sim um amor com afecto e desejo, onde as escolhas foram por amor e por mútuo consentimento, em lugar dos casamentos combinados de antigamente. A partir daí, confundiu-se com um amor que nem sei se existe dessa maneira que é apaixonado a tempo inteiro e cheio de mesuras, em vez de respeito. Nem sei se pode ter correspondência na realidade, porque me parece muito pouco autêntico, mas…

O que fazer quando tudo nela/nele nos começa a irritar?
Fazer uma reflexão muito séria. Trata-se de uma fase má, resultado de um sem número de mágoas e incompreensões ou do resultado esperado de uma relação que não foi totalmente desejada por ambos desde o início?

A confiança perdida alguma vez se recupera?
Com muito amor e paciência sim! Mas é preciso haver essa vontade e questionarmo-nos antes sobre se já estamos preparados para reiniciar a relação ou ainda estamos muito magoados. De qualquer forma, depende das pessoas e da gravidade da situação que levou à perda da confiança.

Um casal sente que a rotina desgastou a relação. Um conselho?
As rotinas, por si só, não desgastam as relações. Grande parte das vezes as pessoas referem-se às rotinas mas estão a falar de tarefas distribuídas de forma desigual. Por exemplo, as mulheres costumam-se queixar de todos os dias fazerem o mesmo e se formos ver bem, fazem todos os dias o mesmo e sozinhas. Não é rotina, é sobrecarga. Os homens queixam-se de elas estarem sempre atarefadas e não lhes ligarem nenhuma, mas não se esforçam para fazer a parte deles. Quando as tarefas são satisfatoriamente distribuídas (e aí cada casal é soberano, como em tudo, nessa distribuição), uma rotina pode ser aproveitada para inovar. No meu livro dou o exemplo de um marido que na noite antes fez um bolo para o pequeno-almoço transformando a rotina diária do pequeno-almoço de todos, num momento mais alegre e abrindo, com isso, boas vontades de todos para também cooperarem. Enfim, claro que as rotinas chateiam e são perigosas para a frescura das relações, contudo, são mais as nozes do que as vozes e muitas vezes são as relações que já não estavam bem.
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Sobre João Casmurro

Esta não é uma página pessoal. Todo o material é compilado por uma equipe de colaboradores, coordenada pela editora Ana Carolina Grignolli, jornalista especializada em comportamento.
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1 comentários :

  1. O verdadero amor só de alma, pos esse amor nao fenese, nao acaba, e, nao morre
    Amor de alma suporta até o impossivel, e o possivel tira de letras.por ser: AMOR;
    A vida é regada com tempero do amor ,e, as vezes com bom punhado de pimenta para sair do marasmo,a pimenta arde lhe fazendo se mexer para vida parada sedentária para atitudes necessarias. Digo a pimenta mexe um pouco com os devaneios isso é bom.
    Também da sabor quando a vida cai na rotina do dia- a- dia.
    Pimenta No amor de almas

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