Com mais de quatro décadas de experiência clínica, o psiquiatra Flávio Gikovate acompanhou os fatos que, nos últimos tempos, mudaram o perfil dos relacionamentos amorosos. As reflexões sobre o amor ao longo desse tempo estão em seu 26º livro, "Uma História do Amor... com Final Feliz". Na obra, o psiquiatra ataca o amor romântico e promove uma nova leitura do individualismo, para ele entendido como uma maneira de aumentar o autoconhecimento. Para ele, não há espaço para a velha metáfora da "cara-metade". Há sim, duas pessoas, diferentes, que não querem se igualar, mas pretendem manter um relacionamento. A receita para a felicidade é o conhecimento dessas particularidades. Ao desenvolver relacionamentos baseados no respeito à individualidade, Gikovate acredita que o casal cria laços que podem durar a vida toda.

Entrevista
Fale um pouco sobre o seu livro. É o fim do amor romântico?
Flávio Gikovate - O amor romântico é um tipo de sentimento que as pessoas passaram a ter, um homem e uma mulher, a partir de algum momento do século 19. É um tipo de ligação mais forte, imaturo, possessivo. Depois da diminuição da importância do clã e, a partir do momento em que os jovens saíram da área rural e vieram para a cidade, passaram a escolher sozinhos seus parceiros conjugais. Quem escolhia era a família. Então, essas escolhas passaram a ser entre opostos e isso era valorizado como uma coisa boa por parte da sociedade. Houve um avanço terrível do espaço feminino. Dois cérebros para pensar. Um monte de opções de individualidade muito mais forte.

Como o senhor define essa nova maneira de se relacionar?
É uma maneira mais individualista, que respeita os avanços que aconteceram no mundo. Homens e mulheres trabalham, são mais independentes, têm relações mais igualitárias e, naturalmente, existe uma necessidade de um respeito maior pelas diferenças. Os casamentos de boa qualidade, hoje, são baseados em afinidades e não em oposição. Hoje, não se fala mais em opostos que se atraem, pelo menos como se falava antigamente, em alma gêmea. Buscam-se afinidades, mas ainda se escolhe por opostos. Mas isso também é uma coisa que não vai durar porque, quando você escolhe uma pessoa que é muito diferente de você, pode encantar em um primeiro momento, vai irritar e encher o saco no momento seguinte.

Com o tempo essas identidades opostas tornam-se mais gritantes?
Sim, porque as pessoas estão mais individualistas. Mas isso é um sinal de maturidade maior. Você não precisa mais depender de outras pessoas para se divertir e se entreter. A solidão vai ficando mais confortável. É mais fácil viver sozinho hoje do que antigamente. O que eu defendo não é o fim do amor. É o fim deste tipo de amor que chamamos de amor romântico, no qual somos uma metade que se completa com outra metade e se faz um inteiro. A idéia de que somos um inteiro e que nos sentimos um pouco incompletos quando estamos sozinhos e precisamos encontrar um outro parceiro, que vai ser um parceiro, um amigão, um companheiro com quem você vai jogar o jogo da vida em dupla.

As pessoas estão se adaptando a essas novas características dos relacionamentos?
Há uma mudança no jeito de se relacionar para que a relação funcione e para que se possa reiventar o casamento para toda a vida. Tem que se reinventar um tipo de relacionamento que seja duradouro, que as relações possam voltar a ser legais e que possam durar a vida inteira.
O senhor acredita que o amor, assim como a paixão, tem prazo de validade?
Não. Se o amor for de qualidade, respeitoso, na qual as pessoas crescem juntas, o amor une. É um sentimento que provoca uma sensação de paz e aconchego. Não é o remédio para todos os males. É preciso que as pessoas tenham planos, projetos de vida juntas. Se o casal tiver de acordo em ter que discutir de uma maneira bacana, que não seja crítica, que não seja rebaixando um ao outro, sem brigas, pode durar a vida inteira.

O senhor acha que os casais hoje idealizam um relacionamento diferente?
As pessoas estão querendo sempre as mesmas coisas: estabelecer relações duradouras e de longa vida, mas não sabem muito bem como. Aí que entra o amadurecimento emocional, e aprendendo um pouco mais sobre essas coisas do amor, porque, na verdade, esse meu livro é isso: tudo que o que eu pude aprender e colecionar sobre o amor desde que eu estava no útero da minha mãe. Quanto mais se conhece o assunto, maior a chance de acertar. O primeiro passo é não imaginar que o outro é o salvador da pátria, que é o médico para todos os seus males. Tem que imaginar que é um parceiro, um amigão, companheiro de viagem e não aquele que você vai colocar todos os seus sonhos e frustrações.

A partir de reportagem do site Cosmo on Line. Leia texto integral
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Sobre João Casmurro

Esta não é uma página pessoal. Todo o material é compilado por uma equipe de colaboradores, coordenada pela editora Ana Carolina Grignolli, jornalista especializada em comportamento.
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